Alta velocidade

Correia da Fonseca

A informação chegou-nos pela TV no dia cinzento e tristonho que foi o passado Domingo Gordo e, pensando bem, talvez tivesse alguma coisa a ver com máscaras e mascaradas. Foi a estória, breve para ser contada, um pouco mais perene para ser lembrada, de um sujeito decerto competentíssimo que a dada altura foi convidado para gestor de um banco em dificuldades. O senhor competentíssimo aceitou, em consequência abandonou funções de gestão que exercia num outro banco (banco que por amarga coincidência algum tempo depois haveria de revelar, também ele, algumas dificuldades) e entrou no banco doente como que mascarado de milagreiro, pois tanto lhe seria exigido pela tarefa que o esperava. Porém, não aceitou a transferência de ânimo leve, digamos assim, como quem faz um favor a um amigo embaraçado, nem de resto essas ligeirezas de ânimo são práticas correntes na área exigente da gestão de bancos e artes similares: para aceitar o convite que lhe era feito, o competente senhor exigiu o pagamento indemnizatório de perto de doze milhões de euros, que isto de bem gerir há-de começar pelos interesses próprios. Exigência aceite, decerto porque era justa e merecida, o senhor gestor passou-se para a barca bancária que metera imensa água e ameaçava afundar-se. Lá esteve decerto a lutar bravamente durante uns seis meses, tempo ao fim do qual foi retirado em braços. Falhara a missão a que se propusera, mas felizmente não falhara a precaução financeira a que condicionara a sua transferência: durante aqueles escassos seis meses da sua vida profissional, havia sido remunerado à velocidade de dois milhões de euros/mês. A isto, bem se pode chamar, sem dúvida, alta velocidade, embora não se trate de comboios, aviões ou automóveis. Mas tratando-se, sem dúvida, de algo de vertiginoso.

O máximo assalto

Como apontamento quase de passagem, mas de importância enorme, digamos que a tal barca bancária em tão grande perigo acabou por afundar-se, levando consigo para as profundezas marinhas ou outras um verdadeiro tesouro cuja perda está a ser compensada pelos sacrifícios de quase todos nós, mas não de todos. Não convém passar sobre a palavra «sacrifícios» utilizada neste quadro sem que uma vez mais se sublinhe que se trata de uma forma concreta de vigarice vocabular, pois onde se escreve «sacrifícios», com a implícita sugestão de prática voluntária, deve entender-se «esbulho», «assalto», «violência infligida», «bruteza». E parece evidente que no peso total, expresso em milhões de euros, da pesada canga que há-de ser suportada pelo povo português ao longo de anos e anos, lá estarão, de um modo ou de outro, directa ou indirectamente, os tais quase doze milhões que o senhor gestor em devido tempo exigiu pelo incómodo. É claro que o episódio vale muito como prova dos méritos profissionais do gestor: quem gere assim os interesses próprios, que maravilhas não fará pelos interesses de uma comunidade?! Infelizmente, porém, esta é uma terra de incompreensões e invejas, como aliás bem se sabe, de tal modo que há quem tenha vindo recentemente a convidar o senhor gestor, dada a ineficácia dos seus saberes e o curto tempo do seu exercício, a devolver o produto da extorsão, perdão, da compensação. É, já se vê, uma sugestão absurda, injusta e ferida por um grave aspecto: o de poder constituir o perigoso precedente de pôr em dúvida a legitimidade e mesmo a imunidade de todas as retribuições que por várias vias afluem ao património financeiro dos que com tão bons e tão comprovados resultados gerem a banca portuguesa em geral e a banca em dificuldades em especial. Esses dinheiros, uma vez pagos são propriedade privada, isto é, são sagrados. Mesmo os que foram ganhos, digamos assim, a supersónicas velocidades. É certo que, enquanto isto, o povão geme, passa horrores, mas de um modo geral lá vai aguentando, como diz o outro. Não sei se se pode comentar, em registo de resignação, que «é a vida!», como em contexto inteiramente diferente soltou um dia António Guterres, mas é seguramente a vida tal como nos é imposta pelos que tomaram conta dela para usá-la contra cada um de nós. Porque até isso nos assaltaram, a nossa vida! E não há data marcada para que no-la restituam. Ainda.



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