Desilusão aprofunda crise
Confrontos entre povo e forças repressivas regressaram às ruas do Egipto, mostrando que é cada vez maior a desilusão dos trabalhadores para com o rumo do país. O Partido Comunista apela a protestos pacíficos e culpa pela situação as forças reacionárias que usurparam o poder.
O ambiente é de revolta para com o curso do país
LUSA
Desde sexta-feira, 25, que o Egipto se encontra, de novo, a ferro e fogo. Às acções de massas convocadas para assinalar os dois anos do derrube da ditadura liderada por Hosni Mubarak, deposto em 2011, e realizadas em grandes cidades do país, sucederam-se choques entre manifestantes e autoridades. A violência tem sido particularmente áspera nas capitais de província Port Said, Suez e Ismailiya, onde já terão morrido cerca de 50 pessoas e centenas resultaram feridas, segundo agências internacionais.
Na capital, Cairo (sobretudo na reocupada Praça Tahrir e zona envolvente, com povo e polícia a trocarem pedras e granadas de gás lacrimogéneo durante as batalhas campais), e noutras cidades do Delta do Nilo, como Alexandria, Damietta ou Kafr el-Sheikh, o ambiente é igualmente de insurreição e revolta para com o curso do país, para com o chefe de Estado, Mohamed Morsi, e a Irmandade Muçulmana, força à qual pertence e que assume crescente preponderância na condução e reconfiguração do regime.
Na segunda-feira, o presidente impôs mesmo o recolher obrigatório e decretou a situação de emergência em Port Said, Suez e Ismailiya, para onde já havia mobilizado o exército e cujo estado de polvorosa serviu de pretexto para fazer aprovar um decreto que, informou a agência estatal Mena, lhe permite recorrer às forças armadas sempre que considere estar em causa a segurança nacional.
Naquelas cidades, a vaga contestatária assumiu contornos especialmente violentos. Nos últimos dias, encadearam-se repressão policial e do exército e novas manifestações contra tais acções, incluindo nos funerais das vítimas dos confrontos, cujo saldo, só no sábado, em Port Said, foi de 30 mortos.
Na cidade costeira, aliás, a divulgação, nesse mesmo sábado, da condenação de 21 membros da claque de um clube de futebol à pena capital, pretensamente por serem responsáveis pela morte de 74 pessoas durante um desafio envolvendo a mais popular equipa local e um rival desportivo, em Fevereiro de 2012, contribuiu, e de que maneira, para a degeneração dos protestos, inicialmente políticos.
Emergência nacional
Considerações sobre a oportunidade da divulgação da sentença à parte; e sendo plausível que, em Port Said, grupos politicamente pouco consistentes tenham aproveitado a ocasião para empreenderem actos de vandalismo – com efeito de contágio noutras cidades, nomeadamente no Cairo, onde os abusos sobre as mulheres parecem emergir nestes contextos –, a verdade é que a razão última da onda reivindicativa no Egipto é a consolidação, entre as amplas massas populares e os trabalhadores, do sentimento de que a contra-revolução avança para manter intocável o fundamental da estrutura que sustentava a ditadura, bem como inimputáveis os seus agentes e beneficiários.
É prova disso o facto de, no passado dia 20, em Alexandria, milhares de pessoas se terem concentrado, frente a um tribunal, para exigirem justiça durante o julgamento de um ex-chefe da polícia e cinco outros graduados, acusados de assassinarem populares nos dias que antecederam e sucederam o derrube de Mubarak.
À impunidade e injustiça já tantas vezes observada para casos semelhantes, acresce o descrédito do poder vigente, apontado como traidor das aspirações de democracia e participação popular nas decisões sobre o futuro do país, acalentadas pela maioria dos egípcios. Junta-se, ainda, o fardo social que está a ser imposto ao povo a propósito da degradação da economia do território.
É esta mistura explosiva, aliada à manipulação dos acontecimentos pela forças reacionárias, que, segundo o Partido Comunista do Egipto, está na base das manifestações mais recentes e da hostilidade para com a Irmandade Muçulmana.
Em comunicado, datado de 26 de Janeiro e publicado no solidnet.org, os comunistas egípcios apelam à manutenção dos protestos e sublinham a necessidade destes se revestirem de um carácter pacífico e de massas, mas, com a mesma veemência, saúdam o povo egípcio, a sua capacidade de iniciativa e os objectivos maioritariamente progressitas revelados.
Nesse sentido, o Partido Comunista exige a demissão do actual governo e do procurador geral, a revogação da ordem constitucional imposta e a convocação de novas eleições presidenciais. Para o PC do Egipto, a saída da crise obriga, também, à constituição de um governo de salvação nacional com base nas forças políticas e sociais democráticas, a imediata implementação de tabelas salariais, e o estabelecimento de preços dos bens de primeira necessidade alinhados com a real capacidade aquisitiva das camadas laboriosas, castigadas pelas consequências da crise económica.