Pedras

Gustavo Carneiro

A coisa não é nova e já nos dias que se seguiram à greve geral de 22 de Março foram as agressões policiais a dois jornalistas na Baixa de Lisboa que monopolizaram as páginas dos jornais e as programações das rádios e televisões. Desta vez não foi diferente, mas atingiu dimensões nunca vistas.

Do que sucedeu no dia 14 de Novembro a generalidade da comunicação social reteve as pedras arremessadas contra a polícia junto à Assembleia da República e a carga policial que se lhe seguiu, as detenções efectuadas e os processos judiciais instaurados aos presos. Quem leu, viu e ouviu os jornais, os noticiários ou os debates nos dias subsequentes apenas ficou a saber, com detalhados pormenores e múltiplas repetições, da acção violenta dos manifestantes, da conduta «exemplar» e «contida» da polícia e da reacção dos advogados.

Não é intenção desta crónica diminuir a gravidade do que aconteceu junto às escadarias do Parlamento e nas ruas mais próximas. Nem tão pouco relativizar os perigos para as liberdades democráticas que podem advir do discurso da «manutenção da ordem», da elaboração de «listas de suspeitos» ou do desrespeito pelos direitos que todos os cidadãos devem ver consagrados, mesmo (ou sobretudo) quando se encontram detidos. Pretende-se simplesmente realçar o que a quase totalidade da comunicação social ignorou ou escondeu, como a grande adesão verificada em todos os sectores; as indústrias sem produção; os transportes parados; as escolas fechadas; as consultas e operações adiadas; os voos cancelados; os portos paralisados.

Ao contrário do que disseram no pouco que falaram da greve, esta não se limitou à Administração Pública e aos transportes, tendo sido a adesão dos trabalhadores do sector privado, sobretudo na indústria e no comércio, um dos mais relevantes elementos. Ao mesmo silêncio foram votadas as concentrações e manifestações que trouxeram para as ruas de mais de quarenta localidades as razões da greve e a sua amplitude.

Mas foi muito mais aquilo que a comunicação social não achou digno de interesse, como a participação de milhares de trabalhadores, muitos dos quais com vínculos precários, nos piquetes de greve, vencendo medos e enfrentando de rosto erguido e descoberto as pressões e as chantagens patronais. Ou a forma serena mas determinada como resistiram à intimidação que as forças de segurança, tomando ilegalmente partido pelos patrões, exerceram sobre tantos e tantos piquetes de greve. Calado foi ainda o impacto que a paralisação teve em muitos que, não tendo tido ainda a coragem para aderir, não ficaram indiferentes à justeza das suas razões e à sua amplitude.

Tal como não se deve esperar que daqui para a frente dêem visibilidade às conquistas que os trabalhadores virão a alcançar sustentados na força da poderosa jornada de luta que realizaram.

E percebe-se que assim seja. Os seus donos sabem tão bem como nós que a organização e a luta dos trabalhadores e do povo são as mais certeiras pedras arremessadas contra esta política e este sistema, indispensáveis também para edificar o País livre e justo pelo qual lutamos.


 



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