A retribuição

Anabela Fino

Sobre a visita da senhora Merkel a Portugal já quase tudo se disse, mas o que verdadeiramente me impressionou nos rios de tinta que correram sobre o assunto não foram as legítimas preocupações da governante alemã com a recessão que grassa por cá e os nefastos efeitos que isso tem na redução das exportações da Alemanha para Portugal (não vão longe os tempos – foi em 2011 – em que Berlim arrecadava por dia 4,4 milhões de euros com o que Lisboa lhe comprava; agora não embolsa mais de 1,9 milhões... É a crise!), nem sequer o facto de a chanceler ter garantido a Passos Coelho um «final feliz» para o martírio português e, por arrasto, para a economia alemã, o que justifica a sua convicção de que «formamos um forte mercado interno europeu, do qual todos beneficiamos».

Também não me impressionou por aí além a conta calada que (inevitavelmente) custou isolar o espaço aéreo, cortar ruas e avenidas, e patrulhar o Tejo para baixo e para cima de forma a garantir a segurança de tão ilustre visita; nem tão pouco me impressionou que, pese embora as recomendações doutra senhora, esta de nome Jonet, as vitualhas do almocinho de trabalho no Forte de S. Julião da Barra (consomé de aves, cabrito à portuguesa, papão de ovos, fruta, tudo regado com um Quinta da Bacalhoa e um Porto Vintage para ajudar a digestão) tenham sido desconformes com a necessidade tantas vezes repetida de termos de aprender a « viver mais pobres».

O que de facto me causou impressão na passagem de Merkel por Portugal foi – quem diria! – o insólito protagonismo do ministro da Economia. Então não é que Álvaro Santos Pereira aproveitou a ocasião para informar que «estamos a reconstruir Portugal, a devolvê-lo à indústria, ao sector produtivo e à agricultura»?!! Valeu bem a pena receber a chanceler só para saber esta novidade.

Mas ASP não se ficou por aí. Empolgado pelo discurso, garantiu que Portugal fez o seu «trabalho de casa», pelo que «é chegada a altura de a Europa nos retribuir».

Dizem as más línguas que o ministro devia aproveitar o discreto banquinho em que a chanceler se terá empoleirado para chegar ao microfone no CCB, para esperar sentado. Caso contrário, ainda se cansa.

 



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