do centenário de Álvaro Cunhal
Revolucionário abnegado e teórico genial
O PCP apresentou, no sábado, em Lisboa, as linhas fundamentais do programa das comemorações do centenário de Álvaro Cunhal, que decorrerão ao longo de todo o ano de 2013. Na ocasião, perante uma sala transbordante de militantes do PCP e de muitos outros que o não são, Jerónimo de Sousa lembrou a «figura fascinante» que é Álvaro Cunhal, garantindo que «permanecerá como um exemplo maior do combatente abnegado de um Partido cuja história se confunde com a história da luta do povo no último século».
Álvaro Cunhal é uma referência da luta dos trabalhadores e do povo
A sala do hotel de Lisboa em que se realizou a sessão era ampla, mas foi pequena para todos quantos fizeram questão de aí marcar presença na tarde de sábado, 10, para homenagear Álvaro Cunhal, no dia em que se cumpriam 99 anos do seu nascimento. Se muitos eram militantes do Partido a que Álvaro Cunhal dedicou o melhor das suas energias e capacidades, outros, não o sendo, reconhecem nele uma figura ímpar de lutador pela liberdade e pela democracia, de resistente antifascista, de intelectual, de artista, de escritor.
Depois da apresentação do programa, através de um vídeo (ver página 18), Manuel Pires da Rocha e Teresa Sobral adaptaram o texto que o escritor brasileiro Jorge Amado escreveu para a campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, nos anos 50 do século passado, intitulado Essa Vida Preciosa, Salvemo-la: «Sua paixão e sua tarefa: libertar o povo da humilhação salazarista, libertar Portugal dessa já tão larga noite de desgraça, de silêncios medrosos, de vozes comprimidas, de alastrada e permanente fome do povo, de corvos clericais comendo o estômago do País, de tristes inquisidores saídos dos cantos mal iluminados das sacristias e da História para oprimir o povo e vendê-lo à velha cliente inglesa ou ao novo senhor norte-americano. (…) Contou-me coisas de espantar com a sua voz ora doce, grávida de ternura, ora violenta de cólera desatada quando falava da fome dos trabalhadores, da opressão salazarista sobre o povo, da opressão imperialista sobre a sua pátria de primavera e mar (…) Os comunistas portugueses, heróis anónimos do povo, os invencíveis, os que estão rasgando a noite fascista com a lâmina de audácia e de sua certeza para que novamente o sol da liberdade ilumine o País dos pescadores e das uvas».
Homenagem justíssima
Jerónimo de Sousa, na sua intervenção, começou por destacar que a «dimensão nacional e internacional da vida e pensamento de Álvaro Cunhal, da sua obra e intervenção justifica este exigente mas aliciante empreendimento a que nos propusemos e que, antes de mais, nos apraz registar, conta também com a iniciativa própria de um amplo leque de instituições da vida política, social e cultural do nosso País». Para Jerónimo de Sousa, as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal são a «justa e incontornável homenagem ao homem, ao comunista, ao intelectual, ao artista, figura central do século XX português e princípio deste século, e que se afirmou como uma referência na luta pelos valores da emancipação social e humana no País e no mundo, nomeadamente para os que, nos quatro cantos do planeta, abraçam a luta libertadora de todas as formas de exploração e opressão do homem e dos povos». Trata-se, portanto, de uma «homenagem justíssima a uma personalidade de invulgar inteligência e inteireza de carácter».
Jerónimo de Sousa frisou ainda que as comemorações do centenário são a oportunidade e o momento para «chamar a atenção para o valioso legado da sua multifacetada actividade, para a importância da sua divulgação, pela riqueza, diversidade e profundidade, do seu trabalho teórico e intervenção política, mas igualmente para a sua laboração criadora cultural e artística, para a sua vida de coerência, firmes convicções e acção, para a actualidade do seu pensamento na resposta aos problemas do País e do nosso tempo».
O seu pensamento e acção, a sua história pessoal de combatente pela liberdade, a democracia e o socialismo «são um exemplo motivador que nos interpela, neste momento particular de realização do Centenário do seu nascimento, para o prosseguimento do combate que foi o dele e é hoje nosso, em demanda da concretização do ideal e projecto comunista, de um mundo justo, livre e fraterno».
Destacado construtor do Partido
Lembrando a biografia de Álvaro Cunhal, Jerónimo de Sousa recordou o seu nascimento em Coimbra, «numa época em que a República portuguesa dava os primeiros passos e se aproximava o momento da grande viragem para um tempo e um mundo novos que a Revolução Socialista de Outubro havia de transportar». A Revolução Russa, prosseguiu, levou-o muito jovem a tomar partido «nos grandes combates do seu tempo, fazendo a opção pelos direitos dos explorados e oprimidos, para se entregar inteiramente à causa emancipadora dos trabalhadores e dos povos».
O Secretário-geral do Partido lembrou ainda o início da actividade política de Álvaro Cunhal, na Faculdade de Direito de Lisboa (já membro do Partido), que seria o começo de um «longo trajecto de intervenção e de luta que percorrerá com uma indomável determinação e grande abnegação, resistindo às mais terríveis e duras provas em dezenas de anos de vida clandestina e prisão que iniciou em 1935 como quadro do Partido, e quando teve que enfrentar com inaudita coragem a tortura e a violência brutal da polícia política de uma ditadura sem escrúpulos».
Três vezes preso nas cadeias fascistas (a última das quais onze anos consecutivos, a maior parte em completo isolamento), de lá se evadiu em Janeiro de 1960, juntamente com outros destacados militantes, para «retomar o seu combate de sempre».
Já membro do Comité Central – e não tardará membro do seu Secretariado – participa na reorganização do PCP, em 1940/41, que «transforma o PCP num grande partido nacional, da classe operária, dos trabalhadores e dirigente da luta de resistência antifascista, num processo onde é inquestionável o seu contributo nesse período que vai até à sua prisão em 1949 para a concepção, construção e consolidação do PCP, como um partido revolucionário, marxista-leninista». Tratou-se de um «contributo de elevado valor, nomeadamente para a definição da identidade e características essenciais de um partido comunista, bem como para a concepção do Partido, como um grande colectivo activo e participante, no qual o trabalho colectivo é visto como “princípio básico essencial do estilo de trabalho do partido” e aspecto fulcral da democracia interna».
Notável obra teórica e artística
Como salientou Jerónimo de Sousa, Álvaro Cunhal combinou sempre uma «esforçada intervenção concreta sobre a realidade com uma profícua produção teórica». Esta obra, acrescentou o dirigente comunista, «não é apenas património do Partido, mas dos trabalhadores, dos intelectuais, do nosso povo, de todos os que aspiram ao conhecimento e à concretização de um mundo melhor e mais justo».
No plano político, realçou Jerónimo de Sousa, é «amplamente reconhecida» a sua contribuição e papel na elaboração da estratégia e táctica do Partido, nomeadamente nas intevenções no III e IV congressos (em 1943 e 1946), no texto sobre o desvio de direita, ou «nesse contributo brilhante para a definição do Programa para a Revolução Democrática e Nacional que é o Rumo à Vitória». E também o papel destacado que assumiu na concepção do actual programa Portugal, uma Democracia Avançada no Limiar do Século XXI.
Outras obras de destaque são O Aborto Causas e Soluções, Contribuição para o Estado da Questão Agrária, As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média, A Revolução Portuguesa. O Passado e o Futuro, o relatório ao VIII Congresso, A verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), O radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista e Acção Revolucionária, Capitulação e Aventura. Os seus Discursos Políticos estão editados em 23 volumes, e há ainda outros textos publicados nas Obras Escolhidas e numa profusão de artigos e brochuras de revistas nacionais e internacionais.
No que respeita à sua produção artística, Álvaro Cunhal é autor de uma dezena de obras literárias, entre as quais se destaca Até Amanhã, Camaradas e Cinco Dias, Cinco Noites, a tradução da obra de Shakespeare Rei Lear, e um vasto conjunto de desenhos e quadros: os Desenhos da Prisão, dos quais estão publicados 41, e Projectos, oito quadros a óleo sobre madeira.
É ainda na prisão que reflecte sobre as questões da arte e da estética, escrevendo Cinco Notas Sobre Forma e Conteúdo. Matéria que voltará a abordar, mais tarde, na intervenção de encerramento da I Assembleia de Artes e Letras da ORL, em 1976, e no importante ensaio A Arte, o Artista e a Sociedade.
Como lembrou Jerónimo de Sousa, Álvaro Cunhal morreu aos 92 anos, em 13 de Junho de 2005. O seu funeral, «com a participação de centenas de milhares de pessoas», foi o reconhecimento e a homenagem «não apenas do Partido, mas dos trabalhadores e do povo português ao seu percurso de vida de intrépido revolucionário, foi uma afirmação da vitalidade e actualidade dos seus ideais e da luta de toda a sua vida e uma manifestação de confiança e certeza que esses ideais e luta têm continuadores no futuro».
A sessão terminou com todos os presentes de pé a cantar a uma só voz Acordai, de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes-Graça.