O Prémio Nobel da Guerra

Rui Paz

A UE envolveu-se, só nos últimos 20 anos, numa dúzia conflitos militares

O Comité de Oslo acaba de atribuir o Prémio Nobel dito da «paz» ao maior exportador mundial de armamento. Em 2010 o conjunto dos estados da União Europeia forneceram a uma multiplicidade de países 32% de todas as armas vendidas nos cinco continentes, seguidos dos Estados Unidos (30%) e da Rússia (24%). Estes estados da UE que a partir de 1990 transformaram as suas doutrinas militares pretensamente defensivas em doutrinas abertamente agressivas desencadearam ou envolveram-se, só nos últimos 20 anos, em cerca de 12 conflitos militares na África, Ásia e Europa.

A UE, como demonstra o Tratado de Lisboa, pretende formar um super-Estado assente no militarismo, na exploração cada vez maior dos trabalhadores e no saque das reservas energéticas planetárias. O mito de que a União Europeia tem sido um factor de paz na Europa integra-se no actual processo de revisionismo histórico e pretende em primeiro lugar ocultar o papel da URSS e dos países socialistas na manutenção da paz, na contenção da agressividade do imperialismo e dos seus planos de guerra e de domínio mundial. Desaparecida a URSS e os estados socialistas do Leste, as potências capitalistas rapidamente mostraram os seus verdadeiros objectivos, a começar pela Alemanha e a França, que desde Maastricht têm vindo a acelerar todo este processo de domínio, satelização e colonização dos povos europeus e a arrastá-los para agressões militares. No jornal oficial do Exército alemão, Truppenpraxis (2196) pode ler-se que «para se obter aquilo que antes se poderia comprar vai ser necessário fazer a guerra» e que «o século XXI será um século de novo colonialismo (...) as futuras colónias serão fundamentalmente fornecedoras de matérias-primas e mercados de escoamento para as potências coloniais». O general Klaus Reinhardt que dirigiu missões militares na Somália e nos Balcãs, esclarece numa entrevista à revista Spiegel (19/2001) que sem a intervenção militar da Alemanha na ex-Jugoslávia, o ministro da chancelaria Bodo Hombach não seria o representante da UE para o «pacto de estabilidade» naquela região. Mais recentemente, um presidente da República teve de demitir-se por lhe ter fugido a língua para a verdade ao afirmar que as tropas militares alemãs no Afeganistão estavam a defender «os interesses económicos» do país.

Os PEC, os pactos de agressão, as troikas estrangeiras e nacionais (em Portugal o PSD/CDS, PS), o pacto orçamental, e agora a decisão do último Conselho Europeu de aprofundar a UEM (União Económica e Monetária) constituem uma verdadeira guerra de rapina contra os trabalhadores e os povos europeus. O recente relatório oficial sobre a pobreza na Alemanha revela perfeitamente quem são as vítimas e os beneficiários desta ofensiva de classe. 10% da população alemã detém 55% da riqueza do país em bens, dinheiro e acções na bolsa, enquanto 50% só possuem 1%. Se considerarmos só a riqueza em dinheiro, os 850 000 milionários e multimilionários (1% da população) já possuem 44 a 45% de todo o dinheiro existente na Alemanha. Só as 20 000 famílias mais ricas (um milésimo da população), detêm perto de um quarto de toda a riqueza em moeda do país. Esta rápida e incomensurável acumulação de riqueza por uma minoria rapace é o resultado do roubo ao Estado e aos rendimentos dos trabalhadores perpetrado pelos sucessivos governos em nome das chamadas exigências dos «mercados», expressão destinada a camuflar a brutal ofensiva de classe da grande burguesia monopolista.


Vivemos um momento de grande violência institucional e anticonstitucional das classes exploradoras e opressoras, elucidativo do cariz reaccionário e canibalista da «ética» capitalista, mas simultaneamente revelador da superioridade moral dos comunistas cujos princípios continuam no século XXI a constituir a principal linha de defesa da paz e da civilização.

 



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