Relembranças

José Casanova

Há trinta e seis anos, por esta altura (mais mês menos mês) tomava posse o primeiro governo PS/Mário Soares, crismado de «governo do PS sozinho», contudo mais apropriadamente chamado «governo do PS sozinho, aliado, de facto, à direita». Tratava-se do primeiro governo, por assim dizer, constitucional: na verdade, foi ele que iniciou a prática, desde então adoptada por todos os que se lhe seguiram, de desprezar, desrespeitar e violar a Constituição da República Portuguesa.

Recorde-se que na campanha eleitoral que antecedera a formação do governo Soares garantira que ia governar «sozinho» porque iria obter 40 a 42% dos votos. E dizia mais: se o PS obtivesse uma votação inferior à das anteriores eleições (38%), não formaria governo, porque isso significava que «o povo português tem dúvidas e não nos quer dar um mandato para governar».

Nas eleições, o PS desceu de 38 para 35%. Soares, à sua maneira fiel à palavra dada, isto é, mandando-a às urtigas, formou governo – um governo do qual ele era, além de primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros (está-se mesmo a ver para quê...), e que tinha como ministro da Agricultura o inevitável Barreto (está-se mesmo a ver para quê…), enquanto a pasta do Trabalho era ocupada pelo previsível Gonelha (está-se mesmo a ver para quê…) e os restantes ministérios eram preenchidos, em regra, por ministros tipo está-se mesmo a ver para quê…

Assim teve início a feroz ofensiva contra a democracia de Abril, contra as conquistas da Revolução, contra tudo o que Abril trouxera de novo, de positivo, de avançado, de progressista para os trabalhadores, o povo e o País.

Assim foi dado andamento a uma política devastadora que, pouco depois, foi caracterizada – e bem – como política de recuperação capitalista, agrária e imperialista.

Assim foi dado o primeiro e decisivo passo na aplicação desta política de direita que, desde então – e através de sucessivos governos PS/PSD/CDS, chefiados por cavacos, guterres, barrosos, sócrates, passos – nos tem desgovernado e conduziu o País à dramática situação em que hoje se encontra.

Aqui se relembram estes factos, de todos conhecidos mas por muitos cirurgicamente ocultados.



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