Em matilha

Henrique Custódio

Soube-se, pelo relatório anual da CMVM sobre as sociedades cotadas em Bolsa, que a generalidade é tutelada por umas dezenas de administradores, a uma média de 12 empresas por cabeça, havendo mesmo um deles, Miguel Pais do Amaral, que «comanda» 73 empresas.

No total, este clube de nababos empochou o ano passado 125,6 milhões de euros, com 21 deles a ganhar mais de um milhão/ano...

 Esta obscenidade – substancialmente ordinária, na propalada «crise do País» –, atinge o delírio com Miguel Pais do Amaral, ao dispor-se a «dirigir» 73 empresas. Mesmo dedicando a cada uma delas apenas meio dia do seu precioso tempo, o múltiplo Miguel só passados dois meses podia voltar ao início das 73, o que significa que, cada uma delas, na melhor das hipóteses, recebe a atenção do seu mimoso gestor seis vezes por ano e por meio dia de cada vez...

Isto dando de barato que a capacidade de trabalho do Miguel lhe consente jornadas diárias de oito horas, sem férias, num ano inteiro...

De barato já não daremos a obscenidade maior desta gente que manda e usufrui nestes «empórios da pimenta» das cotações em Bolsa, ao consentirem e se conluiarem nestas avantajadas tranquibérnias. Mas percebe-se por quê: pagam aos seus «homens de mão», fechando os olhos ao facto de os membros deste clube privado de gestores milionários terem atingido o seu «grau da imcompetência», segundo o «Princípio de Peter», como manifestamente não pode deixar de acontecer a gestores que se responsabilizam, pessoalmente, pela direcção simultânea de dezenas de empresas.

É claro que este escândalo não pode acontecer na função pública e em qualquer parte do mundo dito democrático, exactamente por isso mesmo – o ser um monumental escândalo. Mas, no capitalismo, a moral e o direito aplicados severamente às sociedades humanas desaparecem, sem deixar rasto, quando se entra na famosa «esfera privada». Aí reina o arbítrio e a impunidade e «ninguém tem nada a ver com isso», pois claro. E os governos – todos os governos – do mundo democrático aí estão, muito democraticamente, a velar para que ninguém «tenha nada a ver com isso».

Quanto aos gestores em causa, cuja média de idade anda pelos 52 anos (uns jovens, em casos que tais), decerto lá se amanharão, com entreajudas e cumplicidades pelo meio (de uso nos clubes privados), a contento dos patrões nas governanças da «coisa privada».

Para essa governança lançarão no desemprego milhares sobre milhares que, ao contrário deles (com os seus múltiplos «empregos» e vida de nababos), só tinham aquele trabalho e aquela esquelética remuneração para viver.

Fá-lo-ão sem hesitar, engendrando falácias pomposas para explicar os despedimentos, as «reduções de pessoal», a «flexibilização do trabalho», o «investimento estratégico» e mais um par de botas, dando aos accionistas-mor o prazer de verem bem empregados os 125,6 milhões de euros que deram àquela «gestão» em matilha.

Ou em capitalismo, tanto faz.



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