Pequim – Londres – Rio

Vasco Cardoso

Em 2008, enquanto decorriam os Jogos Olímpicos de Pequim, num artigo – «As medalhas» – publicado no Avante! chamava-se a atenção para a crucificação pública dos atletas portugueses pelos «fracos» resultados desportivos. Voltar ao tema tornou-se quase obrigatório.

Quer porque os resultados dos 77 atletas lusos nos JO de Londres não só mantêm o mesmo registo de então, como até se corre o risco de regressar sem qualquer medalha ao peito. Mas também porque nos principais media não há dia que passe sem que essa ausência seja assinalada.

Na verdade, os JO, com a sua dimensão universal e cada vez maior força mediática, trazem para a ribalta uma realidade quase clandestina. De repente, ouve-se falar de atletismo, ginástica, natação, alterofilismo, ténis de mesa e de um sem número de modalidades colectivas, que não apenas o futebol profissional. O País é sacudido com horas de imagens incrivelmente belas, onde atletas de todas as nações competem entre si. E havendo um natural questionamento sobre os «êxitos» e «fracassos» nacionais, em regra, as razões de fundo são ocultadas.

Daqui por quatro anos chegarão os JO do Rio de Janeiro. Até lá, se for por diante tudo quanto o Governo PSD/CDS tem em concretização, o filme a que a temos assistido tenderá a agravar-se. A base de massas de prática desportiva inspirada em Abril está em destruição; o número de atletas federados diminui; a construção e o investimento em equipamentos desportivos praticamente parou; a educação física está a ser retirada dos currículos escolares; o movimento associativo popular está em estrangulamento financeiro; agrava-se as situações de salários em atraso, de extinção de modalidades e de clubes em falência técnica; e até o número de equipas de futebol profissional está em recuo – só este ano saíram mais de 60 clubes das competições nacionais; etc. A prática desportiva é cada vez menos um direito e cada vez mais um serviço que se paga.

Poderá até aparecer esta ou aquela medalha no futuro, mas a verdade é que os tempos de retrocesso e declínio que estão a ser impostos ao País, a não serem urgentemente invertidos, não deixarão de continuar a expressar um retrato de um povo a quem estão a roubar direitos, a quem estão a roubar o futuro.



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