Uma estória destes dias

João Ferreira

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«Deus Nos'Senhor ajude a quem dá trabalho òs pobres»

 

«E aprendeu a notar coisas

A que não dava atenção»

 

O dia quente, apesar de ainda curto, mergulhava-o num certo torpor, sensação estranha para quem se considera um homem de acção, habituado a tomar as decisões que se impõem, por difíceis que sejam, sem hesitações ou procrastinações. Decisões como a que hoje era chamado a tomar, melhor dizendo, como a que hoje era chamado a anunciar aos trezentos colaboradores que a empresa decidira dispensar. Enfim, ajustamentos derivados de descréscimos de produção, inerentes à actividade do sector.(1) Uma situação normal, como reconheceu aliás o presidente da Câmara(2) – homem pragmático, compreensivo face às naturais contingências inerentes à actividade do sector, e que sabe reconhecer a importância que investidores como este têm para a prosperidade do concelho. Por essa razão, de resto, não hesitara tudo fazer para ajudar a mover mundos e fundos (incluindo os generosos fundos comunitários) para atrair para a cidade este importante investimento.

Respirou fundo. Enquanto apertava os botões de punho dourados revia mentalmente as preocupações que o aguardavam ao longo do dia. Os tempos, de facto, não estavam fáceis. Só um rigor e uma eficiência de gestão extremos haviam permitido garantir os resultados excepcionais que o grupo apresentara no primeiro trimestre do ano.(3)

Mais tarde, seria naqueles impecáveis e luminosos botões de punho que uma das trabalhadoras com mais anos de casa haveria de fixar o olhar absorto, enquanto ia deitando contas à vida. Esse alheamento não haveria de permitir que seguisse, com a devida atenção, a exposição completa do sr. Administrador, diga-se, muito lógica e bem encadeada: encomenda cancelada, falta de trabalho, «e não vos posso ter aqui a jogar às cartas, não é?», «talvez mais tarde, se vier outra encomenda», «boa sorte, boas férias, e até qualquer dia, quem sabe», «escusam de voltar amanhã».

Trezentas almas, quantos pensamentos. A sentença fora lida em não mais de cinco minutos. Cinco minutos: conciso epílogo, nalguns casos, para anos de trabalho. Noutros, simplesmente, para uma moderna e flexível, tão flexível quanto recente, relação com empresa de trabalho (comprovadamente) temporário. Deve ser isto, afinal de contas, a flexibilidade que andam a dizer nas notícias que Portugal precisa.(4) Sim, deve ser isto. Com mais flexibilidade, a coisa ia...

Na mudança de turno, as conversas e as angústias entrecruzam-se no ar quente do início da tarde. «Que vai ser de nós agora?, são dois ordenados que se vão lá em casa», «vou mas é ter com o meu irmão a França!, por aqui, trabalho não vai haver tão cedo», «até pá semana, no centro de emprego», zomba um. Três rapazolas atiram «bem, vamos lá apanhar uma bebedeira». De uma mulher igualmente jovem, gravidez impossível já de esconder, saem as únicas palavras que se lhe ouviram até então naquela tarde: «eu, nem isso posso... não sei que faça».

No ar, pairava ainda a notícia, fresca de dias antes, do despedimento de quatrocentos trabalhadores da sede do serviço de atendimento da Segurança Social (e ainda há dias diziam na televisão que os despedimentos são mais fáceis no sector privado(5)...). Contas feitas, em três dias, perto de setecentas pessoas perderam o seu posto de trabalho.(6)

Estes e outros pensamentos percorriam a cabeça dos que iam cruzando o portão da fábrica, talvez para não mais voltar. Uns atrás dos outros gritavam ao porteiro um número, o seu número, como que dando baixa de uma peça, e mais uma, e mais outra, sem utilidade prática de ora em diante, nesta engrenagem que – justiça lhe seja feita, bem o reconhece o sr. presidente da Câmara – continua (ainda) dando bom uso a centenas de outras peças da região.

Ele há coisas que dão que pensar. Era o que ia fazendo, estrada fora, mãos nas algibeiras vazias, um dos que minutos antes cruzara o mesmo portão de todos os outros. A razão do necessário ajuste fora-lhes claramente explicada pelo administrador. De resto, toda a gente falava dela nos jornais da terra: aquela conhecida marca de automóveis, que decidira suspender a encomenda.(7) É a crise, dizem. O diabo é que neste deve e haver da crise há sempre qualquer coisa mais difícil de explicar. Como aquela outra notícia pequenita que vira, quase por acaso, dias antes, num qualquer jornal que lhe passara pelas mãos, onde se dizia, mais ou menos isto: que a vida parecia não correr assim tão mal ao tal fabricante de automóveis,(8) a julgar pelos lucros recentes que anunciavam. Seriam, seguramente, as tais eficiência e racionalidade de gestão, de que o administrador lhes falara momentos antes...

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(1) Jornal de Negócios, 28/06: «Delphi avança para o despedimento de 300 trabalhadores em Castelo Branco».

(2) Agência Financeira, 28/06: «Delphi despede, autarca diz que é normal».

(3) Transport Topics, 24/04: «Delphi’s First-Quarter Earnings Rise».

(4) Rádio Renascença, 04/06: «Troika pede mais flexibilidade laboral para acabar com desemprego».

(5) Jornal de Negócios, 16/07: «Portas diz que Função Pública merece mais austeridade. Tem razão?»

(6) Agência Financeira, 28/06: «Delphi despede 300 pessoas em Castelo Branco».

(7) Correio da Manhã, 29/06: «Empresa de Castelo Branco alega fim de contrato com Rover; Delphi despede 300».

(8) Clube Land Rover Portugal, 11/06: «Jaguar Land Rover bate recorde de vendas».



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