O bom caminho

João Frazão

Vítor Gaspar foi à reunião da Primavera do FMI dizer a banqueiros e gestores de grandes fundos de investimentos que Portugal está «no bom caminho».

Nada que não tenha sido já dito em momentos anteriores, por outros ministros das Finanças e até por primeiros-ministros de vários governos e de vários partidos, mas todos da mesma política.

O «bom caminho», o «rumo certo», o «Portugal no pelotão da frente», o «oásis» – são apenas algumas das expressões que têm servido para tentar afirmar o acerto das medidas que vão impondo ao País e ao povo e que se seguem, quase sempre, ao discurso da inevitabilidade profusamente usado para justificar a sua aplicação.

Ora um tal discurso tão repetitivo merece pelo menos dois reparos.

O primeiro é que a singeleza destas palavras contém a ideia de que, com as medidas do chamado «programa de ajustamento», os dias de amanhã serão risonhos, a economia florescerá e o emprego irá crescer. Ideia que choca de frente com a verdade histórica de que cada período de ajustamentos necessários e de sacrifícios indispensáveis, cada declaração solene, por parte do governante de serviço, do «bom caminho» em que Portugal se encontra redundou, invariavelmente, em mais recessão e dificuldades, mais défices e desequilíbrios das contas públicas, que justificaram novos períodos de ajustamento, novas e mais duras medidas para recolocar Portugal no tal «bom caminho».

O segundo é o de que, mesmo sabendo qual o destino onde este «bom caminho» vai dar, não pode ser silenciado o facto de ele ser feito exclusivamente sobre os sacrifícios, as dificuldades e o sofrimento dos trabalhadores e do povo. Um «bom caminho» que inclui os milhares de jovens que desistem de estudar, os idosos que não têm dinheiro para os medicamentos, o aumento exponencial dos que recorrem à caridade para se alimentar. Um caminho que, ao contrário, é efectivamente bom para «os actores financeiros internacionais», pois é sinónimo de drenagem das riquezas nacionais para os seus bolsos.

Suponho que, à porta fechada, o ministro também os deve ter avisado que esse «bom caminho» vai continuar a contar com a resistência e a luta do povo português.



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