Mãos à obra

José Casanova

O pri­meiro-mi­nistro in­citou os por­tu­gueses a serem «menos pi­egas», a que deixem de «la­mentar-se com as me­didas de aus­te­ri­dade» e a que deixem de ser «pre­gui­çosos».

E, sempre a in­citar – e sempre em­pol­gado, em­pol­gante e di­dác­tico – pro­clamou que, o que é pre­ciso é, em vez de pi­e­guices, la­mentos e pre­guiças, «lançar mãos à obra», pois só assim será pos­sível «su­perar a crise».

Há que re­co­nhecer – e re­gistar – os no­tá­veis dotes de ob­ser­vação e a ex­trema sen­si­bi­li­dade do pri­meiro-mi­nistro.

Re­al­mente, estes por­tu­gueses são uns ca­lões e uns pi­egas e uns quei­xi­nhas de todo o ta­manho: em vez de aplau­direm com en­tu­si­asmo todas as me­didas de aus­te­ri­dade, in­dis­pen­sá­veis para su­perar a crise, pro­testam e de­nun­ciam o facto de elas só serem apli­cadas à ar­raia-miúda; em vez de se sen­tirem fe­lizes com o au­mento do de­sem­prego, in­dis­pen­sável para su­perar a crise, os pre­gui­çosos clamam tra­balho e, para cú­mulo, exigem tra­balho com di­reitos; em vez de verem os cortes nos sa­lá­rios, re­formas e sub­sí­dios como me­didas in­dis­pen­sá­veis para su­perar a crise, gritam que estão a ser rou­bados e chamam ga­tunos a quem os roubou; em vez de ba­terem palmas aos au­mentos dos bens ali­men­tares e da elec­tri­ci­dade e da água e do gás e dos trans­portes e da saúde e da edu­cação e das rendas das casas, in­dis­pen­sá­veis para su­perar a crise, dizem que isto assim não pode ser; em vez de pe­direm «bis» aos cortes dos fe­ri­ados, o do Car­naval in­cluído, in­dis­pen­sá­veis para su­perar a crise, as­so­biam os go­ver­nantes; em vez de fes­te­jarem, gratos, o acordo do tra­balho es­cravo e não pago, in­dis­pen­sável para su­perar a crise, chamam-lhe ter­ro­rismo so­cial e dizem que o Go­verno é dos pa­trões; em vez de dei­tarem fo­guetes à sábia go­ver­nação e aos ci­cló­picos es­forços do pri­meiro-mi­nistro, in­dis­pen­sá­veis para su­perar a crise, gritam-lhe que os deixe em paz e que vá fazer o in­ferno para outro lado.

Assim sendo, é che­gado o tempo de os por­tu­gueses, cor­res­pon­dendo ao apelo do pri­meiro-mi­nistro, lan­çarem «mãos à obra» de «su­perar a crise» – para já, en­chendo a trans­bordar o Ter­reiro do Paço e, logo que pos­sível, des­pa­chando a po­lí­tica de di­reita com bi­lhete de ida.



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