Morrer sozinho

Margarida Botelho

Dizem-nos que só neste primeiro mês do ano foram 12 os idosos encontrados mortos sozinhos em casa. São naturalmente situações que chocam e entristecem, de que jornais e televisões se apressam em dar pormenores. O tom geral da cobertura noticiosa fala-nos destes casos como se de uma epidemia se tratasse, quase responsabilizando os vizinhos pelo sucedido.

É verdade que não foram até agora divulgadas estatísticas que nos permitam conhecer melhor este fenómeno, comparar períodos de tempo, regiões do País, classes sociais. Também é verdade que a divulgação diária destes casos nos grandes meios de comunicação de massas pode dar a ideia de uma dimensão desproporcionada face à realidade.

Mas também é verdade que casos como estes não se podem descontextualizar da situação social e económica do País. Com reformas muito baixas, o custo de vida a aumentar dia a dia, os cortes nos serviços públicos a fazer-se sentir, são muitos os idosos que se sentem condenados a uma vida de pobreza. É ela que impõe o isolamento, a má alimentação, a degradação da saúde física e mental. Faltam aos cuidados primários de Saúde e à Segurança Social os meios, os profissionais e as políticas que permitam um acompanhamento mais próximo dos idosos. Falta uma rede pública de lares e centros de dia, empurrando as famílias para situações a que nunca pensaram chegar.

As medidas que o Governo tem previstas, com impactos directos nos idosos, não apontam para qualquer melhoria da situação. Pelo contrário: quantas centenas de milhares de reformados, pensionistas e idosos deixarão esta semana, por via de um aumento brutal de preços, de comprar o passe para os transportes públicos, condenando-os a ainda maior isolamento? Quantas centenas de milhares de idosos vivem com o coração apertado ao ouvir falar da nova lei dos despejos? Quantos já perderam, só neste primeiro mês do ano, o direito à isenção de taxas moderadoras e ao preço reduzido dos medicamentos – e por essa via deixaram de ter acesso aos cuidados de Saúde apropriados ao seu caso?

Também nesta situação se comprova que é indispensável interromper o caminho que o pacto de agressão quer impor ao povo e ao País – e quanto mais depressa melhor. Encher o Terreiro do Paço no dia 11 é um bom contributo.



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