Acima das possibilidades
Meses a fio de mistério, e agora finalmente se resolve o enigma. Andamos há meses, talvez anos, a ouvir como uma das justificações para a crise a história de que os portugueses andaram anos a viver acima das suas possibilidades.
A generalidade do povo português ouvia o coro da acusação grave que lhe atiravam e interrogava-se se seria verdade, olhando para anos de ginástica a esticar os meses e a tirar daqui para tapar ali. Até houve gente, honesta e trabalhadora, que se convenceu de que a culpa da ruína do país era sua.
Mas Cavaco decidiu explicar o que é isso de viver acima das possibilidades. Pelos vistos era de si próprio que falava quando dava lições de moral sobre poupanças domésticas e estilos de vida saudáveis. Então não é que o homem, que já na campanha eleitoral das presidenciais se tinha queixado que tinha que sustentar a mulher que, coitadinha, tinha uma pequena reforma de 800€, afinal o que ganha não lhe chega para as despesas?! 1300€, coitado, ao fim de 40 anos de descontos, e ainda por cima sem ter vencimento como Presidente da República!
Não se sabe o que terá passado pela cabeça de Cavaco. Nem interessa. Como diz o povo, a mentira tem a perna curta, e passados minutos das tolas declarações de Cavaco já os jornais publicavam a declaração oficial de rendimentos do senhor. 1300€ só se for nalguma parcela: Cavaco tem mais de 10 mil euros mensais de pensões, fora os rendimentos das aplicações e participações que tem – era com certeza a elas que Cavaco se referia quando se dizia, ele e a sua Maria, «muito poupados».
Dir-nos-ão: as reformas de Cavaco não são o maior problema do país. E não. Mas a hipocrisia que revela nas declarações que fez, a frieza com que há décadas destrói direitos e instrumentos fundamentais para que o País se desenvolvesse, o cinismo com que aconselha austeridade, tornam estas declarações num insulto a todos os que vivem do seu trabalho.
Em Guimarães, na abertura da Capital Europeia da Cultura, Cavaco terá tido das maiores vaias da sua vida. O que Cavaco talvez não saiba – mas saberá daqui para a frente – é que foram milhões os portugueses que gostavam de ter estado naquela noite em Guimarães, só para expressar a indignação que sentem.