Por tempo indeterminado

José Casanova

A União Eu­ro­peia tem sido cons­truída, do início até agora, num pro­cesso de per­ma­nentes atro­pelos aos prin­cí­pios de­mo­crá­ticos e no qual os povos não são ou­vidos nem achados para nada.

Me­lhor di­zendo: se os povos es­ti­verem pre­dis­postos a dizer «sim» aos in­tentos dos «cons­tru­tores», tudo bem: vamos lá ouvi-los e de­cidir «de­mo­cra­ti­ca­mente»...; se há in­dí­cios, ainda que té­nues, de a res­posta ser um «não», aí a coisa fia mais fino e então os «cons­tru­tores» avançam sem ouvir nin­guém –

Lem­bramo-nos do que acon­teceu com o Tra­tado Por­reiro, pá! : quando se pen­sava que toda a gente o iria aprovar e aplaudir, todos os «cons­tru­tores» ju­ravam que ia haver re­fe­rendo – «para que fosse dada a pa­lavra ao povo», «para que o povo ex­pres­sasse de­mo­cra­ti­ca­mente a sua opi­nião»: blá-blá-blá

Con­tudo, mal se aper­ce­beram que as coisas po­diam dar para o torto – isto é que os povos talvez vo­tassem «não» – me­teram os tra­vões às quatro rodas e… não há re­fe­rendo para nin­guém.

Porquê? Eles, de­sa­ver­go­nha­da­mente, con­fes­savam: «porque o “não» vai vencer»…

E o Tra­tado foi apro­vado… «de­mo­cra­ti­ca­mente» – a con­firmar que para estes «de­mo­cratas», elei­ções sim, mas só se ti­verem a vi­tória pre­vi­a­mente as­se­gu­rada.

Exem­plos se­me­lhantes de des­res­peito e afronta à de­mo­cracia há-os aos centos, para todos os gostos e fei­tios e ca­pazes de agradar a todos.

E, sendo a União Eu­ro­peia um pro­jecto todo con­ce­bido e exe­cu­tado à me­dida exacta dos in­te­resses do grande ca­pital, não só não sur­pre­ende que assim seja, como é mister dizer-se que de outra forma não po­deria ser.

Agora, com a «crise», estes «de­mo­cratas» estão a exibir uma nova fa­ceta do seu con­ceito de «de­mo­cracia»: a Grécia bateu no fundo?: pronto: os «cons­tru­tores» or­denam que se forme um novo go­verno para o qual de­signam, desde logo, um pri­meiro-mi­nistro es­co­lhido por eles; a Itália está a afundar-se?: pronto: aí está um pri­meiro-mi­nistro da con­fi­ança dos «cons­tru­tores» pronto para a função – e mais o que adi­ante se verá…

E o tão ba­da­lado «su­frágio uni­versal, pilar da de­mo­cracia»?

Bom, esse, para já, fica de molho. Por tempo in­de­ter­mi­nado.



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