Micael morreu a trabalhar

Vasco Cardoso

O turno de oito horas na mina já tinha acabado às 15 horas de segunda-feira, dia 10, mas Micael Lopes, e o seu ajudante, Ricardo Macedo, de 23, que cumpria o seu primeiro dia de trabalho, ficaram a trabalhar por mais uma hora para «melhorar o acumulado de horas extra no final do mês». Eram 15h20 quando se deu a tragédia numa das galerias das Minas da Panasqueira, Covilhã. Nesse dia Micael já não sairia vivo de dentro da mina.

Horas depois iniciava-se o debate Prós e Contras na RTP1 sob a consigna «A austeridade já não chega», conduzido com a habitual «competência» de Fátima Campos Ferreira. O tema central, de um programa cada vez mais de sentido único, acabaria por ser o do alargamento do horário de trabalho, onde não faltaram especialistas, académicos e homens da «sociedade civil» a clamarem por tão clarividente solução. Isto é, não chega cortar nos salários, subir impostos sobre os bens e serviços essenciais, cortar nos direitos. A concretização do pacto de agressão implica ir mais longe no agravamento da exploração: mais horas de trabalho, por menos salário.

É esta a tese que tem vindo a emergir nos últimos meses: a austeridade leva à recessão, logo é preciso aumentar os ritmos de trabalho, o tempo de trabalho, a flexibilidade, os bancos de horas, para garantir ganhos de competitividade (para quem?). É a tese que dá suporte ideológico às alterações na legislação laboral e cuja aplicação é esperada com ansiedade pelo grande patronato. É a tese que Cavaco repete até à exaustão quando diz que os os portugueses precisam de «trabalhar mais».

Na manhã seguinte, os companheiros de Micael não entraram na mina. O luto dos mineiros da Panasqueira fora transformado em luta. Concentrados à porta da empresa, reafirmaram exigências que há muito vêm formulando de mais condições de segurança, de formação profissional, de salários e direitos. Pela voz do sindicato chegou a denúncia de ameaças de despedimento aos trabalhadores que questionem as condições de segurança na mina, explorada há dezenas de anos pela multinacional canadiana Beralt In & Wolfram, que se orgulha de ter estado «quatro meses sem acidentes de trabalho».

Não foi uma pedra que matou Micael, mas a mais brutal, a mais crua e inemutável exploração capitalista.



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