A Oeste algo de novo

Correia da Fonseca

Um já quase totalmente esquecido livro de Erich Maria Remarque inspira, ainda que por antítese, o título destas duas colunas. Tenta-se assim prestar uma minúscula homenagem a uma obra progressista que o tempo e sobretudo o efeito dos diversos filtros impostos pela sociedade capitalista erradicaram da memória colectiva. Mas a eventual justificação para a evocação desse título decorre do facto de, ao contrário do afirmado pelas aliás dramaticamente irónicas palavras de Remarque, haver sinais de que na verdade alguma coisa de novo está a acontecer a Oeste, isto é, do lado de lá do Atlântico. Já lá vão os anos em que sob a designação de «Ocidente», no poema inicial de um livro com que se candidatava ao aplauso e admiração da «política do espírito» de António Ferro, Pessoa caracterizava os Estados Unidos como «futuro do passado». Não era talvez uma previsão difícil; e de então para cá aquele futuro tornou-se presente, distribuiu tentáculos seus por todo o mundo, e dizem alguns que entrou em trânsito para a condição de passado tout court. De qualquer modo, as notícias que nos chegam sobretudo pela televisão, ainda que relativamente parcimoniosas, parecem enviar-nos sinais de algo de novo, de mudança possível. Apenas possível e, de qualquer modo, provavelmente ainda longínqua. Não mais que sinais ainda sem nitidez e por isso insuficientes para que mitiguem impaciências, pressas e também necessidades porventura urgentes. Mas bem se sabe, ou devia saber-se, que a História só nos fornece o que muito bem parece apetecer-lhe e ao seu próprio ritmo, não o que nos apetece a nós e à velocidade que nos conviria. É a vida, como dizia o outro. E é com ela, tal como é, que temos de nos haver.

 

Dúvida, apenas

 

Trata-se, como decerto já se entendeu, das manifestações que têm ocorrido em Nova Iorque, ou sobretudo em Nova Iorque, de que a televisão nos tem dado sucintas notícias, bem menos extensas do que as que ainda recentemente nos deu quando de manifestações populares havidas noutros lugares. Nestes casos, logo as estações portuguesas e as de outros países não menos ocidentais, certamente bem prevenidas, despacharam para os locais dos acontecimentos os seus enviados especiais. Quanto a Nova Iorque, tem bastado o trabalho dos correspondentes ali instalados a título permanente, quando os há, ou breves trabalhos de reportagem decerto fornecidos por agências, e essa relativa parcimónia pode sugerir que aqueles protestos serão coisa de um fim-de-semana ou pouco mais, pelo que não se justificará uma atenção desmesurada. Em reforço desse possível entendimento, tem vindo a ser-nos dito que a contestação expressa pelos manifestantes se dirige contra a espoliação praticada por 1% dos norte-americanos sobre 99% dos seus concidadãos, o que permite entrever que a tempestade se amainará logo que o desequilíbrio deixe de ser tão acentuado e aquelas taxas se alterem. É certo que as câmaras das reportagens deram conta, esporadicamente, de faixas reclamado o fim do capitalismo como sistema sociopolítico, mas essa reivindicação anómala no quadro que conhecemos da vida norte-americana há-de ter resultado da infiltração de elementos que não representam nada de relevante no presente e assim continuarão no futuro. Não obstante, a dúvida que pode suscitar-se é a de que pode não ser assim. A de que milhões de cidadãos norte-americanos talvez possam estar a descobrir que pagam o efectivo fausto da minoria com a instabilidade na vida laboral, a total insegurança quanto ao futuro, a desprotecção perante a doença e a velhice, as fabulosas despesas militares em consecutivas guerras de agressão imperial de que beneficia um punhado de verdadeiros senhores da guerra, os pungentes custos humanos em mortos e destroçados que essas aventuras sem princípios mas com fins implicam. E que esse conjunto de horrores tem um nome que até agora estava quase sacralizado no imaginário colectivo, ardilosamente confundido com um manipulado sentido patriótico sob o pseudónimo de «livre iniciativa» ou de «liberdade individual», fórmulas que conferem um falsificado perfume virtuoso ao que é, de facto, o capitalismo puro e duro na sua pluridisciplinar desumanidade. Trata-se, como ficou dito, apenas de uma dúvida. Talvez apenas de uma remota eventualidade. Mas há dúvidas e eventualidades que crescem com o tempo. Até que, um dia, a História nos revela que afinal as coisas estavam a mudar.



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