Palhaçadas sem arte

Manuel Augusto Araújo

As gargalhadas de Berardo que ecoam entre as suas múltiplas declarações são um insulto que, mais uma vez, não vai ter resposta. Há gente que vive da grande impunidade que lhes é concedida. O objectivo de Berardo é transparente. Pretende confundir a opinião pública sobre a situação da sua colecção e os privilégios excessivos e excepcionais de que beneficiam a Fundação de Arte Moderna Contemporânea – Colecção Berardo e o CCB, para que não se fale da sua anunciada falência.

Desde o princípio desta história, objecto de referência no Avante!, Berardo não queria nem nunca quis saber da arte para nada. Estava ávido por encontrar uma montra para a sua colecção, que desse visibilidade e contribuísse para aumentar o seu valor de mercado. Seguro das cumplicidades que angariava nalguns meios artísticos, acenando garridamente com a carteira recheada de euros, sempre se comportou com alarvidade necessária para não falhar os objectivos. Isabel Pires de Lima foi mimoseada com o epíteto de estúpida quando se atreveu a avançar algumas ideias que, embora submetendo-se a um suposto supremo interesse em conservar aquela colecção em território nacional, limitavam de algum modo as condições leoninas que Berardo, com apoio de gente do gabinete do 1.º ministro queria e conseguiu impor. A jogada dessa malta percebeu-se de imediato quando um assessor de Sócrates que antes se tinha saracoteado na corte do comendador, se chegava à frente fazendo declarações oferecendo-se sofregamente para ocupar lugar de relevo na futura fundação. Depois, o alvo foi Gabriela Canavilhas quando colocou reticências às negociatas que se faziam com a política de aquisições da Fundação. Soube-se, lendo os Relatórios e Contas, que o Estado entrava com meio milhão de euros anuais que iam parar aos bolsos de Berardo porque eram aplicados a comprar obras que o comendador ainda tinha lá por casa. Isto acontecia enquanto Berardo em vez de entrar com dinheiro líquido, «cumpria» essa sua obrigação contratual, igual à do Estado, em géneros, entregando mais umas obras que estavam lá por casa. Ficou-se sempre por saber por quanto Berardo as tinha adquirido e por quanto as vendeu para a sua própria colecção. Na prática quanto é que o comendador ao longo desses anos meteu directa e indirectamente ao bolso. O argumento avançado pelos membros da direcção da Fundação, acenando a bandeirinha do interesse artístico das obras é patético. Tenham ou não tenham interesse artístico, o que está em causa é a lisura do processo. A falta de ética ainda que tudo seja legal. De obras com supremo interesse artístico está o inferno cheio! Quando a tramóia foi conhecida e Canavilhas se demarcou, logo Berardo berrou aos quatro ventos que ela era mentirosa. A impunidade continuava e compensava.

Agora o comendador, ameaçado de falência pelas brutais dívidas contraídas na banca para especular na bolsa, espadeira em todas as direcções para distrair a malta. Fala em sacos azuis do CCB, desmente ruidosamente a secretaria de Estado da Cultura e a Fundação do Centro Cultural de Belém, administrada pelo Estado, dizendo, entre sarcásticas gargalhadas, que à Fundação Berardo não chegou dinheiro nenhum e que «se eles pagaram, onde é que está o dinheiro, levaram para casa? (…) à nossa conta não chegou. Devia ter ido parar à conta do CCB… do saco azul». Avança a ideia de que duas Fundações no mesmo o local não fazem sentido. Quer dizer não lhe basta ter-se apropriado de uma área substancial do CCB. Quer abocanhá-lo por inteiro.

A resposta da secretaria de Estado da Cultura, neste Governo politicamente desvalorizada, foi tímida. Plantou na comunicação social a intenção de fazer uma reavaliação da colecção para saber o seu valor efectivo. É o que menos interessa. Demonstra o que é a cultura para essa gente. Hortaliça ou literatura, enchidos ou pintura, música ou… teatro ou… o que conta é o que vale em dinheiro. São como o comerciante de arroz do Brecht que não sabe o que é o arroz, nunca viu o arroz, do arroz só conhece o preço. Enquadra-se no que o secretário de Estado tem dito sobre os critérios de distribuição de verbas em função do impacto público. No caso, que interessa saber se os 12 milhões de euros porque a Christie’s avaliou o «Ten-Foot Flowers» de Warhol, continuam a valer isso. Milhão a mais ou a menos a obra continua a ser e não deixará de ser uma merda!

O importante é desmistificar Berardo, quando arrota com os milhares de visitantes que a sua colecção regista, sem dizer quanto é que cada visitante custa aos contribuintes portugueses e comparar isso com outros museus. É acabar com o saco de dinheiro que o Estado entrega à Fundação Berardo e que é subtraído a outras instituições tuteladas pelo Estado. Quase 90% dos custos de funcionamento da Fundação Berardo são suportados pelo Estado. Entre 2007 e 2010, o Estado já enterrou 27 milhões de euros na colecção Berardo. O único beneficiário directo e indirecto é o comendador que arranjou praticamente à borla um centro comercial, para expor a sua colecção equivalente, por exemplo, ao que é o Rock no Rio para a música pop. Não mais do que isso, porque a arte não é mais do que um activo mercado de bens de luxo. O valor artístico que se lixe. Isso sabe bem Berardo, tão bem como sabe que se fosse um de nós já teria sido obrigado a pagar o que deve que, ao que consta, é superior a mil milhões de euros sem somar os juros que, pelo que se lê na imprensa dita da especialidade, vão sendo vencidos sem serem pagos. Estão bem uns para os outros. São farinha do mesmo saco.



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