É assim, a ideologia
Por estes dias, assistimos a uma ofensiva sem paralelo na batalha ideológica (que não será a que menor atenção exige, nem a que menos impactos tem na vida dos povos e nos resultados da luta dos querem um mundo melhor), através do intrigante debate sobre o aumento dos impostos para os ricos. Ao mesmo tempo, o Governo PSD/CDS generaliza a ideia das tarifas sociais para os pobrezinhos.
Procuram assim difundir a ideia de que os sacrifícios vão agora ser distribuídos por todos e que quem manda está preocupado com os enjeitados da vida e que garantirá a sua sobrevivência.
Pelas horas de debates nas rádios e televisões, pelos milhares de folhas de jornais gastas, simples é concluir que o verdadeiro objectivo deste debate é outro e bem mais profundo. O objectivo é esconder o receio de que as massas ampliem a consciência da profunda injustiça que as políticas de acentuação da exploração significam.
Warren Buffett, multimilionário norte-americano que, num artigo no New York Times, deu eco à teoria de que os ricos não querem mais ser mimados, deu o sinal. Diz ele que «os americanos estão rapidamente a perder a confiança». Ou seja, o que os poderosos estão a fazer é a procurar saídas para evitar que, como diz também WB, «essa dúvida se transforme em desesperança». O mesmo é dizer que o que é necessário é evitar que essa tomada de consciência se transforme em movimento e em luta.
Nesta luta de ideias ficam duas afirmações esclarecedoras: a de WB, dizendo que «é altura de o governo levar a sério a partilha de sacrifícios»; e a de Américo Amorim, dizendo que não é «rico, mas apenas um trabalhador».
Uma e outra têm a mesma intenção. Nivelar, fazer igual aquilo que é diferente. Comparar o operário corticeiro com o dono do império das cortiças. Assemelhar verdadeiros sacrifícios dos que no fim do mês não sabem como alimentar os seus filhos, com alguma pequena taxa que venham a aplicar aos mais ricos, para isentar os lucros, as mais-valias, a especulação.
Como o seguro morreu de velho, os exploradores procuram a legitimação e a aceitação da exploração. Mudando o mínimo que tiverem que mudar para ficar tudo na mesma. É assim, a ideologia.