Manifestação cultural de classe
Para Manuel Augusto Araújo e Filipe Diniz, a Bienal da Festa do Avante! é uma mostra só possível na maior iniciativa político-cultural nacional. Este ano, para além dos muitos jovens talentosos que podem ser apreciados por um público amplo e heterogéneo, vai estar patente uma exposição que homenageia Cipriano Dourado, artista militante de verticalidade exemplar.
«O sucesso da Bienal reside na fórmula que garante espaço a criadores menos consagrados abrindo simultanemanente as portas às amplas massas populares»
Em conversa com o Avante!, os membros da organização da XVII Bienal sublinharam não apenas o número de novos artistas que concorreram, mas também a qualidade dos trabalhos em representação das várias áreas criativas. «São cerca de 90 obras seleccionadas de entre um total de 300», começou por dizer Manuel Augusto Araújo, para quem «há um grande equilíbrio no que diz respeito às diversas expressões das artes visuais e performativas num tempo em que as fronteiras se encontram bastante diluídas.
«Teremos o tradicional quadro bidimensional e a escultura, mas também o vídeo e, pela primeira vez na Bienal da Festa, a ilustração», disse referindo-se ao projecto EVA, da ilustradora Margarida Botelho.
Na opinião de Manuel Augusto Araújo e Filipe Diniz, o sucesso da Bienal reside na fórmula que garante espaço a criadores menos consagrados abrindo simultanemanente as portas às amplas massas populares.
«Neste momento, os jovens que pretendem expor não têm a vida facilitada. No actual contexto de crise capitalista as galerias procuram sobretudo o que chamam de valores seguros», sintetizou Manuel Augusto Araújo. É sintomático dos tempos que vivemos, acrescentou, antes de lembrar que sendo tal cenário um sinal do estado do sistema, não é novo.
«Quando a libra deixou de ser moeda de troca internacional abrindo caminho ao dólar, o discurso de abertura da Bienal de Veneza dessa a época foi inteiramente dedicado àquele facto, em vez de se centrar no conteúdo do que se estava a inaugurar», recordou.
Filipe Diniz vai mais longe e explica que «o universo das artes se tornou num negócio de milhões com um crescimento exponencial nas últimas décadas. Uma das condições da estabilização desse negócio é a sua desideologização, isto é, o mercado tem a necessidade de globalizar uma arte menos interventiva socialmente».
I
Um público diferente
Por outro lado, salientou igualmente Filipe Diniz, «a Bienal tem de ser vista no contexto da Festa. O público não é o mesmo que o de outras mostras.
«Uma das grandes virtudes culturais que temos sempre que realçar na Festa do Avante! é o de proporcionar a milhares de portugueses o acesso à música clássica, a grandes vultos da pintura portuguesa, ao convívio com os melhores escritores. Na bienal que estamos a preparar, considerou, ressalta também o facto de novos artistas encontrarem um público que não encontram em mais nenhum lado».
«A primeira Bienal da Festa do Avante!, lembrou Manuel Augusto Araújo, teve um efeito surpresa. Entretanto, vamos na XVII edição e o hábito foi interiorizado. Há muitos que vão lá pela primeira vez ver uma exposição, mas também há muitos para quem aquela é a única exposição de artes que visitam».
«Na Festa do Avante! o público é extremamente disponível», acrescentou, ainda, Filipe Diniz. «Reagem positivamente a diversos universos estéticos e expressões artísticas, o que não acontece fora do ambiente da Festa dada a influência do senso comum, profundamente conservador».
Estímulo à acção
A talhe de foice, Filipe Diniz destaca o papel de charneira quer da Festa quer das autarquias CDU na criação de uma disposição reivindicativa para o acesso às artes por parte da população. Esta dinâmica de exigência estendeu-se, o ano passado, aos criadores, observando-se a movimentação mais significativa destes no período pós-revolução de Abril.
Isto tem uma importância fundamental porque vai ao encontro das aspirações de milhares de jovens formados, cuja capacidade criadora se vê cerceada pela carência de investimento público, aludiu.
Nos 90 anos do nascimento de Cipriano Dourado
Homenagem a um
intelectual sem verniz
A XVII edição da Bienal terá um dos seus momentos altos na homenagem a Cipriano Dourado. Pela segunda vez em 35 anos de Festa do Avante!, o artista militante vai ser homenageado pelo colectivo partidário a que pertenceu e ao qual dedicou o melhor das suas forças e saber. A iniciativa ocorre quando se assinalam os 90 anos do seu nascimento e os 30 anos da sua morte, mas o propósito funda-se noutras razões.
Cipriano Dourado é «muito visto, mas menos comentado do que aquilo que merece», lamentou Filipe Diniz. Isso não acontece por acaso, frisou.
«O Cipriano Dourado era um homem com uma espantosa facilidade de desenhar, mas uma parte da sua luta era precisamente dificultar essa destreza, por isso reproduziu cenários muito complexos, como pedaços de mato, por exemplo. Isso é uma atitude estética, mas também ética.
«O apagamento da sua obra sobre o ciclo do arroz é uma forma de desvalorizar a sua atitude na sociedade. Esta homenagem que lhe fazemos é justamente para sublinhar a sua conduta. Cipriano Dourado é uma das figuras cimeiras da ligação entre a arte e a intervenção.
«O Cipriano Dourado participou em todas as exposições gerais de artes plásticas, os primeiros momentos em que a PIDE intervém directamente para retirar obras de arte. Esta postura de artista militante levou a que muitos outros saíssem dos respectivos gabinetes e se lançassem na intervenção pública.
«Resumino, era um intelectual que nasceu sem verniz. Podia ter-se envernizado pela dimensão da sua obra e o reconhecimento dos seus pares.
«Não o fez, era um revolucionário», concluiu».