O País não pode desaprender de produzir

Vladimiro Vale (Membro da Comissão Política)

1. Os Estaleiros Navais do Mondego (ENM), na Figueira da Foz, existem desde 1944 e desde então, até há poucos anos, a sua missão era construir barcos. Em 2007 foram comprados por um valor simbólico por um empresário espanhol à Fundação Bissaya Barreto, com o acordo de assumir o pagamento das dívidas (o que não aconteceu). Anos de políticas de desinvestimento e de desincentivo na produção nacional fizeram que estes estaleiros tenham vindo a definhar e a perder trabalhadores. Só durante este processo cerca de 250 trabalhadores terão sido dispensados, restando actualmente cerca de 60 trabalhadores. Com a sangria de trabalhadores sangram-se os estaleiros daquilo que é mais importante, a capacidade de construir navios.

Os Estaleiros do Mondego são de importância estratégica para a região

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Os trabalhadores dos ENM encontram-se com os contratos de trabalho suspensos desde Fevereiro 2011 e com salários em atraso. Os créditos dos trabalhadores atingem cerca de 1 milhão de euros. Os trabalhadores vão falando dos seus colegas que saíram e que tiveram que rumar ao estrangeiro e aplicar o conhecimento de uma vida ao serviço de outras empresas e de outros países. São conhecimentos e práticas que se aprendem ao longo de uma vida de trabalho, a sua perda não é reparável a curto prazo.

Em 67 anos, 236 navios foram construídos, foram reparados inúmeros outros. Os ENM assumiram uma importância estratégica do sector da construção e reparação naval para o distrito de Coimbra e para o País. Só não foram construídas mais embarcações porque, com a nova administração, foi implementado outro esquema de produção em que se construíam apenas blocos (partes), que posteriormente eram montados na Galiza. Ou seja, colocou-se uns estaleiros com mão-de-obra altamente qualificada, com tecnologia altamente especializada e com certificação europeia para construção de embarcações em alumínio, a trabalhar à peça, tal qual uma empresa têxtil sem marca própria, ou seja, fazendo com que o valor acrescentado resultante da construção dos navios ficasse de fora dos estaleiros.

A viabilização desta empresa é fundamental para as indústrias do mar, o crescimento económico e o combate ao endividamento externo. A viabilidade e continuidade dos ENM tem uma importância estratégica para o sector da construção e reparação naval no nosso País e é essencial para o crescimento económico e a criação de emprego.

 

2. Na semana que passou a administração da EMEF decidiu anunciar o encerramento das suas oficinas da Figueira da Foz. Não se pode dizer que seja uma novidade, uma vez que ao longo dos anos foram desinvestindo e escoando recursos e trabalhadores. Aliás, as oficinas da EMEF na Figueira da Foz, que já tiveram cerca de 400 trabalhadores, têm hoje pouco mais que 30.

Trata-se de encerrar as únicas oficinas de reparação no distrito de Coimbra, uma vez que as oficinas de Coimbra também já foram encerradas colocando em causa a prestação de um serviço de manutenção e reparação do material circulante, eficaz e com qualidade. Hoje é usual fazer deslocar composições por camião para as levar a reparar, assim como também se vai tornando normal enviar composições para reparar em Espanha.

Neste processo, é também paradigmática a forma como se desrespeita as estruturas representativas dos trabalhadores, com a administração a recusar reunir, desrespeitando a lei. Por outro lado, este encerramento da EMEF na Figueira da Foz não pode ser desligado do ataque ao transporte ferroviário no distrito de Coimbra, com o encerramento do ramal da Lousã e da linha Pampilhosa-Cantanhede-Figueira da Foz, e deixa antever o encerramento ou redução da Linha do Oeste.

O que o País necessitava era do desenvolvimento do transporte ferroviário, da produção e manutenção de material circulante; construção, gestão e manutenção das infra-estruturas; controlo de circulação; circulação de passageiros; circulação de mercadorias.

 

3. Os sucessivos governos PS, PSD e CDS que nunca têm dúvidas quando se trata de disponibilizar milhares de milhões para os grupos financeiros, nada fazem para evitar que um país com a maior zona económica exclusiva da Europa deixe os seus estaleiros definhar, nada faz para evitar que no País se desaprenda de construir e reparar material ferroviário.

Os exemplos dos Estaleiros do Mondego e das oficinas da EMEF são o resultado de 35 anos de política de direita de PS, PSD e CDS de destruição do aparelho produtivo nacional, de um processo de desindustrialização, de privatizações, de financeirização da economia, de submissão às imposições da UE e ao grande capital nacional e estrangeiro. Impõe-se assim como tarefa primordial organizar e ampliar a luta dos trabalhadores e das populações, por uma ruptura com esta política de direita, por política patriótica e de esquerda para o País.

 



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