Transportes I

O aumento dos transportes públicos, atingindo uma média entre os 20 e os 25%, nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto (isto após «aumentos segundo a inflação» aplicados no início do ano e sob a habitual «garantia» de não mais aumentar este ano), constitui uma afronta directa à democracia proporcionada pela Revolução de Abril e um ataque mortífero a uma das conquistas dessa Revolução democrática – o passe social e a massificação universal e subvencionada do transporte público, garantida pelo Estado para permitir deslocações acessíveis aos trabalhadores e ao povo em geral.

Pois este aumento de 25% - um quarto do preço total – é tão brutal que não esconde o objectivo real, antes o grita a plenos pulmões: o de destruir o passe social em definitivo. Isto é o começo de um caminho que visa, também às claras, a destruição definitiva do regime democrático tal como foi delineado e construído após a Revolução de Abril.

 

Transportes II

 

Para quem, eventualmente, ache exagerado que estes aumentos nos transportes pretendam «destruir o passe social», basta experimentar ir com duas pessoas de combóio de Lisboa ao Porto, para verificar que já lhes ficará mais en conta se forem ambos num só automóvel - e isto com portagens de auto-estrada já incluídas.

Quanto aos que se deslocam nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, não precisam de ser barras em contas para desacobrirem que, se o fizeram num mínimo de dois por carro já ficam a poupar. Claro que se subirem para três ou quatro por carro a poupança já ganha significado.

Entretanto, com esta medida estúpida e apenas preocupada em meter mais fortunas nos bolsos dos operadores privados, o que se vai conseguir no curto prazo é um ainda maior congestionamento automóvel e poluição das grandes cidades.

Mas vão ver que ainda os iremos ouvir em discursatas a «defender o ambiente»...

 

Regressos

 

O JN puxou para primeira página uma investigação feita pelo jornal e que anuncia que «300 mil emigrantes chegam pessimistas». O pessimismo é explicado também no título: «Crise em Portugal afasta hipótese de regresso. Nos países em que trabalham a vida corre melhor». Segue-se, no interior, um mini-inquérito que justifica estas conclusões, com a quase generalidade dos inquiridos (todos emigrantes recém-chegados para umas ansiadas férias no torrão natal) a confirmarem que a situação sócio-laboral está muito melhor nos chamados «países de acolhimento» do que no torrão pátrio, o que justifica que a maioria esmagadora não encare, para já, o regresso.

Trata-se de um trabalho jornalístico oportuno e com conclusões tão lógicas, como deprimentes.

O que o jornal não concluiu – nem a isso estava obrigado ou fundamentado – é que o próprio futuro dos nossos emigrantes por essa Europa em crise também não está nada garantido.

Será uma questão de tempo – e não muito, porque as coisas estão todas a precipitar-se – até que essa «Europa da fartura» não seja também «sugada» pelo vórtice que a especulação e a hegemonia dos financeiros impuseram ao próprio regime capitalista.



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