A escura mancha que alastra…
«Considerada numa fase do seu mais favorável desenvolvimento, a sociedade capitalista oferece-nos um quadro mais ou menos completo de liberdades democráticas. Essa democracia, porém, está sempre confinada às fronteiras da exploração capitalista e representa sempre os interesses de minorias, da classe dominante. É uma noção de democracia unicamente talhada para os ricos. Num tal sistema, a “liberdade” permanece o que sempre foi na Antiga Grécia: uma liberdade democrática para os senhores dos escravos» (Lénine, “O Estado e a Revolução”, 1918).
«Aquilo que o Estado faz – e que é, aliás, seu dever – está normalmente carregado com o peso de uma excessiva burocracia que é um dos motivos de desumanização dos seus serviços. À Igreja compete o dever de estar presente para dar um sentido ao sofrimento, para ser sacramento de salvação… e para fornecer um suplemento de alma» (Padre Gonçalves Moreira, “Síntese”, 1986).
«A Igreja é chamada a dar uma alma à sociedade moderna... e esta alma deve ser infundida pela Igreja passando por dentro, tornando-se próxima do homem de hoje...
Nesta perspectiva, devemos observar que o fenómeno da dissensão representa um
grande obstáculo à evangelização. A tarefa é vasta mas Deus está connosco!» (Paulo VI, “Discurso ao Simpósio do Conselho das Conferências Episcopais, 1985).
Escusamos de depender da leitura passiva dos jornais. É-nos possível juntar factos, aproximar notícias isoladas e formular teses que depois criticaremos; primeiro apenas connosco; depois, abertamente, com aqueles que nos rodeiam. Só assim será possível aproximarmos-nos da realidade. Assim também o entenderam os grandes mestres do materialismo dialéctico, nomeadamente Marx, Engels, Lenine e Cunhal. Lê-los, é compreender que a análise da história da humanidade de há 200 anos tinha afinal as mesmas linhas de força que se revelam no mundo actual. No mesmo sentido poderíamos recuar ainda mais, muitos séculos atrás.
Falámos aqui no recente contrato firmado entre os parceiros da troika que consagra crimes contra o povo, já abertamente apoiados pelo Patriarcado, em nome de uma Igreja católica que diz representar. E lembrámos a multidão de humildes e explorados que o pacto vai ajudar a esmagar e a mergulhar na miséria. Agora, os bispos falaram e foi bom que assim fosse. Abriram as «guardas» e mostraram aos pobres de que lado a hierarquia está. Subscreveram o acordo.
Como é evidente, no plano ideológico é completamemente falso que a doutrina romana não encerre um plano de poder servido por linhas estratégicas bem definidas. A Igreja tem por missão ensinar, santificar e governar. Nela, todos os poderes se concentram num só homem. A igreja não «brinca em serviço» quando fala em governar.
Igualmente se deve reconhecer que, ao longo da história dos povos, o Magistério da Igreja foi coerente com este enunciado de princípios de acção. Ainda na Europa não se falava em Estado político e social e já a Igreja concebia um poder classista partilhado entre o Clero e a Nobreza, com um Povo aparentemente santificado mas impiedosamente explorado pelos seus senhores. O povo revoltava-se, por vezes, mas cedo era vencido. Os cardeais vigiavam. Sabiam que a Terra continuava a girar e organizavam a Igreja do futuro. Sempre contra o povo. Os camponeses fugiam ao inferno dos campos, amassavam-se nas cidades e cedo ou tarde viriam a constituir um grave risco para os grupos dominantes. Os índices da riqueza iam-se transferindo: primeiro, tinha sido a posse dos frutos da terra; depois, a navegação, o comércio e o desenvolvimento das indústrias a exigir sempre mais e mais matérias-primas e moeda. A Igreja foi a primeira grande instituição a compreender que o povo não poderia continuar a ser apenas explorado sem disfarces, à luz do dia. Para além de continuarem a instigar a formação de enormes fortunas baseadas no saque católico e piedoso e de instalarem milagres burlescos para uso da turba popular, os cardeais fundaram misericórdias, lazaretos, confrarias de «pendão e caldeiro», etc. Fixaram a velha ideia de pôr a Igreja a ensinar, santificar e governar. De conquistar o poder político também através da acção caritativa.
Que terá tudo isto a ver com a troika ou a troika com tudo isto? Haja esperança de que a evidência desta relação se venha a estabelecer rapidamente entre nós. O poder político do clero nunca foi conquistado nas barricadas mas no silêncio dos confessionários. Dividindo para reinar.