Tempos de coragem
«Os tempos que vivemos exigem muita coragem, mas coragem foi o que nunca faltou a este Partido Comunista Português», afirmou Jerónimo de Sousa no comício realizado no domingo em Águeda.
A acção e a luta necessárias precisam de um PCP mais forte
Intervindo numa festa-comício realizada em Espinhel, no concelho de Águeda, que juntou largas dezenas de pessoas na tarde de domingo, o Secretário-geral do PCP considerou que os tempos estão difíceis para os trabalhadores e o povo português. «O conjunto das extensas e graves medidas que o Governo pretende aprovar no imediato e nos próximos meses exige que nos preparemos para uma luta que pode ser prolongada e em muitas frentes», alertou, acrescentando que «é isso que se impõe fazer».
Jerónimo de Sousa apelou aos militantes e organizações do Partido para que assegurem uma «forte intervenção no plano da acção política e da luta de massas, porque só a luta pode conter e derrotar os desígnios dos que apostam no aprofundamento da exploração do trabalho e na degradação das condições de vida do povo». Na actual situação, esclareceu, a luta de massas é a resposta «necessária e determinante» contra a ofensiva em curso, patente nas primeiras medidas anunciadas pelo Governo. Mas é também o «factor essencial de construção de um Portugal de justiça e de progresso», sublinhou o dirigente comunista.
Considerando que a ofensiva precisa de ser confrontada com a luta e a determinação dos trabalhadores e das massas populares no imediato, Jerónimo de Sousa destacou, recorrendo ao lema da mais recente campanha do PCP, que é preciso «fazer frente e fazer frente desde já» – «fazer frente com as massas, dinamizando a sua luta, pelo aumento dos salários, em defesa dos horários de trabalho e da exigência da sua redução, no combate à precariedade, pelo direito ao subsidio de desemprego e pela exigência de emprego, na defesa da segurança social.»
O Secretário-geral do PCP apelou ainda ao alargamento da luta a outras camadas da população, contra as privatizações, a extinção dos serviços públicos, a defesa do Serviço Nacional de Saúde e da Escola Pública, a garantia de um sistema de transportes públicos e o combate ao aumento dos preços.
Um Partido mais forte
A acção e luta que é necessário desenvolver e alargar em defesa do regime democrático de Abril e dos direitos sociais, económicos e culturais exigem, segundo o Secretário-geral do PCP, um «partido reforçado, mais forte com uma intervenção diversificada capaz de responder às exigências da hora presente». Um Partido que terá de estar «cada vez mais preparado, mais forte, mais activo, mais interventivo, ainda mais ligado aos problemas e aos trabalhadores, capaz de dinamizar e dar um novo ímpeto à luta».
Apelando a que os comunistas redobrem o trabalho para que, dessa forma, cumpram o seu «insubstituível papel», Jerónimo de Sousa manifestou a sua convicção de que «temos um Partido como nenhum outro,, com uma história, força, valores e projecto sem igual». O dirigente do PCP conta ainda com a coragem e com a «confiança que ela nos dá» para ir em frente com a luta pela democracia, avançada, por um Portugal de progresso, pelo socialismo.
Antes de Jerónimo de Sousa, já Óscar Oliveira, da Direcção da Organização Regional de Aveiro do Partido, tinha chamado a atenção para a situação dramática que se vive no distrito: redução de salários na Cifial; trabalho não pago das bolsas de horas, que os trabalhadores derrotaram na Cacia Renault e na Califa; salários e subsídios em atraso na Subercor e na MoveAveiro; horas extraordinárias não pagas na Cinca; despedimentos colectivos na Abel Costa Tavares, entre muitos outros. O dirigente regional referiu-se ainda ao encerramento de serviços públicos – estações dos CTT, escolas, serviços e extensões de saúde, repartições de finanças, serviços de apoio à agricultura e outros. A redução de comboios e as ameaças de encerramentos de linhas foram também referidas por Óscar Oliveira.
Para este dirigente do Partido, «é o momento de combater a resignação, a desorientação, e as ilusões» e de «juntar forças e vontades, de resistir e lutar».
Alterações às leis laborais
Propostas inaceitáveis
No comício de Águeda, Jerónimo de Sousa debruçou-se sobre as propostas do Governo para alteração às leis laborais, que estarão hoje em debate na Assembleia da República. O dirigente do PCP salientou que, com esta primeira proposta, o Governo pretende «criar as condições para os despedimentos mais fáceis e mais baratos». Em seguida, alertou para o facto de este ser um «primeiro passo», pois no «diabólico plano da troika» está ainda previsto o «alargamento das possibilidades de despedimento por “justa causa”, a flexibilização do horário de trabalho por via do “banco de horas”, a redução do valor pago pelas horas extraordinárias e o ataque à contratação colectiva e ao papel dos sindicatos na negociação».
Com estas alterações, denunciou Jerónimo de Sousa, o Governo e os partidos da troika pretendem «pôr todos os trabalhadores em situação de precariedade para os tratarem como material descartável e continuarem a escalada de redução das suas remunerações». Todas estas propostas, acrescentou, «não resolvem nem o problema da dívida, nem do défice, nem nenhum dos problemas nacionais». Visam, sim e exclusivamente, o «aumento da exploração do trabalho».
Para Jerónimo de Sousa, «não é com mais precariedade e com salários mais baixos que se desenvolve o País». É, sim, com emprego com direitos, com a valorização dos salários, com a estabilidade dos vínculos que se garante e constrói um país desenvolvido e de progresso, que rejeite o «estafado modelo de baixos salários».
Esta ofensiva visando a anulação dos direitos dos trabalhadores e de ataque aos rendimentos do trabalho «não pode ficar sem resposta», afirmou o Secretário-geral do PCP. «Se há quem pense que os trabalhadores e povo estão condenados assistir de braços cruzados à destruição das suas vidas, é necessário que se lhes recorde que com outros governos que se julgavam estar seguros de pedra e cal, não só foi possível interromper os seus planos, como derrotá-los.»