Salvar quem?

Ângelo Alves

As conclusões das reuniões do ECOFIN e do Eurogrupo, o «cenário» que rodeou estas reuniões, a sua agenda de trabalhos e as declarações proferidas à sua margem revelam bem da profundidade da crise estrutural do capitalismo, do aprofundamento da crise económica e social no «velho continente» e das contradições que, no seu desenvolvimento, se intensificam no espaço da União Europeia e desta com os EUA.

As conclusões do ECOFIN confirmam um cenário de grande instabilidade na Europa. O cenário da generalização das chamadas «crise da dívida soberana» é uma real possibilidade e indissociável das tendências de fundo de aprofundamento da crise na tríade capitalista, como o comprovam as recentes declarações de Obama que, alertando para os riscos de um impasse em torno do tecto da dívida norte-americana, afirmou que «poderíamos entrar na pior recessão que já houve. A pior crise financeira pela qual já passamos».

A aprovação da mal dita «ajuda» a Portugal é um passo mais no acelerado processo de concentração e centralização de poder económico e político em curso na União Europeia, no construir de um «cordão sanitário» em torno das grandes potências capitalistas da Europa. Se faltassem provas, as situações na Grécia e na Irlanda, e os resultados das intervenções externas nestes países, aí estão a demonstrar que o que está em causa não é o interesse destes povos, mas sim «desconstruir» económica e socialmente os países da periferia para salvar os grandes grupos económicos das grandes potências.

E se os factos não chegassem para o provar atente-se então em duas declarações de dois altos responsáveis europeus, bem elucidativas de para que serve, e a quem serve, a União Europeia, o Euro e os seus mecanismos e programas «de estabilização»: Olli Rehn, Comissário Europeu dos Assuntos Económicos afirmou na segunda-feira que «ajudando Portugal (…) protege-se simultaneamente a retoma económica na Alemanha», e Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, vendeu durante uma visita à China a «solidez» do Euro, sustentando essa afirmação na ideia de que o PIB de Portugal, Irlanda e Grécia, «representam apenas 6% do PIB da Zona Euro».



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