Jerónimo de Sousa no comício do AKEL em Chipre

Apoio internacionalista, confiança na vitória

Na visita que efectuou ao Chipre, nos dias 6 e 7, Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do PCP, interveio num comício do AKEL, realizado em Nicósia, a capital cipriota, onde manifestou a solidariedade do PCP para com a luta do povo cipriota pela reunificação do país, cujo Norte está sob ocupação da Turquia há três décadas e meia. Do discurso proferido destacamos os extractos que se seguem.

O reforço dos partidos comunistas determinará o desfecho da crise

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«Recebam as calorosas saudações e um abraço fraterno de solidariedade do Partido Comunista Português. (...)

1974 é um ano marcante na História dos nossos dois países. Em Portugal, no dia 25 de Abril, o povo português levou a cabo uma revolução democrática e nacional – a revolução dos cravos – que pôs fim a meio século de ditadura fascista, conquistou a liberdade, realizou profundas transformações económicas e sociais e abriu alamedas de esperança para o desenvolvimento e o progresso do nosso País. Aqui no Chipre, no outro extremo da Europa, poucos meses depois, nesse mesmo ano de 1974, o vosso país foi fustigado por um terrível acontecimento de sentido diametralmente oposto: o golpe de Estado, a invasão, divisão e ocupação do vosso país pelas forças de ocupação turcas com todas a atrocidades, ilegalidades e crimes que tantas feridas deixaram e que tanto fizeram – e ainda hoje fazem – sofrer o vosso povo.

Um autêntico crime concretizado a partir de uma conspiração da NATO aprovada em 1973 numa sua reunião no então Portugal fascista. Um crime bem demonstrativo da natureza e reais intenções desta organização, recentemente reafirmadas e aprofundadas com a aprovação do novo conceito estratégico da NATO na cimeira de Lisboa e posto agora em prática com a agressão imperialista ao povo líbio.

Um crime e uma situação de gritante desrespeito pelos direitos humanos e a Carta das Nações Unidas, cuja continuação até aos dias de hoje é da responsabilidade, em primeiro lugar, da potência ocupante – a Turquia –, mas também da chamada “comunidade internacional” – e em particular das principais potências imperialistas – que, por via de uma política de dois pesos e duas medidas, tem vindo a manifestar a sua tolerância e mesmo apoio à estratégia de ocupação, divisão, colonização e assimilação prosseguida pelas forças ocupantes turcas em claro desrespeito pelo direito internacional. Mas, se 1974 é um ano que no Chipre se recorda com profunda tristeza, ao olharmos para este comício, para o seu ambiente e conteúdo, para o profundo simbolismo de que está carregado ao juntar as duas comunidades, cipriotas-gregos e turco-cipriotas, então facilmente concluímos que a frase que milhões de portugueses gritaram durante e após a revolução portuguesa – e que ainda hoje continuamos a gritar – é profundamente actual e válida aqui e hoje no Chipre.

 

Unidos vencerão

 

«Ao olharmos para este comício e para a sua força pensamos ser adequado dizer que também aqui no Chipre “O Povo unido jamais será vencido”. É por isso que aqui, perante todos vós – cipriotas gregos e turco-cipriotas – vos queremos manifestar o nosso solidário apoio e a nossa confiança na vitória da vossa longa e corajosa luta.

Apoio e confiança no vosso empenho em resistir às tentativas de divisão do povo cipriota e em insistir na política de reencontro e de solidariedade recíproca entre as duas comunidades cipriotas, bem demonstrada na vossa solidariedade para com as recentes manifestações sociais na parte ocupada do vosso país. Apoio e confiança na vossa persistência em construir a única, justa e viável solução para o problema cipriota – uma federação bizonal e bicomunal, um Chipre reunificado com uma única cidadania, uma única personalidade internacional e uma única soberania. Apoio e confiança no vosso povo que saberá construir pelas suas próprias mãos, sem ingerências ou condicionalismos externos, um Chipre unido que se afirme no plano internacional como um espaço e uma ponte de paz e amizade entre os diferentes povos e culturas que convivem nesta zona do Mediterrâneo. Apoio e confiança na persistente e abnegada acção do vosso partido que, enfrentando muitas adversidades, incompreensões e até campanhas que nada têm que ver com o interesse do povo cipriota, se tem afirmado e confirmado ao longo de todos estes anos como a grande força dos trabalhadores, do povo cipriota, da sua unidade e luta. Apoio, solidariedade e confiança no papel e trabalho do presidente da República de Chipre, o camarada Dimitris Christofias em prol da causa nacional do povo cipriota e da sua unidade e na sua incansável determinação em encontrar, construir e trilhar os caminhos que – apesar dos ataques e campanhas injustas – mantenham as portas abertas ao diálogo, à negociação e à solução do problema cipriota.

É portanto dando conteúdo concreto à nossa amizade e à nossa confiança na vossa luta, que aqui estamos confirmando a solidariedade dos comunistas portugueses e desejando ao AKEL os maiores sucessos nas eleições parlamentares do dia 22 de Maio. Sucessos que serão de grande importância para (...) continuar a defender os direitos, interesses e aspirações dos trabalhadores e do povo de Chipre e a demonstrar que mesmo neste quadro há alternativas de desenvolvimento e soberania.

 

Pelo Chipre do futuro

 

«Uma ofensiva que, como os recentes desenvolvimentos na União Europeia confirmam, só poderá ser travada com o reforço da luta social e de massas nos vários países da União Europeia, com o reforço dos partidos comunistas e outras forças verdadeiramente progressistas, com uma corajosa intervenção política e ideológica denunciando as reais causas e responsáveis desta crise do capitalismo e com uma forte luta pela inversão do actual rumo da União Europeia e pela construção de uma verdadeira Europa dos trabalhadores e dos povos pela qual os nossos dois partidos se batem há muito nomeadamente no seio do Grupo Unitário da Esquerda Europeia/Esquerda Verde Nórdica do Parlamento Europeu.

(...) Como a realidade em cada um dos nossos países evidencia os comunistas são chamados, num contexto internacional marcado por grandes perigos mas também por reais potencialidades de desenvolvimento da luta revolucionária, a grandes responsabilidades, desafios e exigências. A situação é propícia a desenvolvimentos bruscos e muitas vezes imprevistos. E é por isso que continuamos a considerar que o reforço dos partidos comunistas, da sua organização, da sua ligação às massas, da sua influência política e eleitoral, da sua intervenção ideológica, da sua cooperação visando dar visibilidade à alternativa de fundo de que somos portadores – o Socialismo –, são factores de grande importância para determinar a correlação de forças que resultará desta situação de profunda crise do capitalismo e de agudização da luta de classes no plano nacional e internacional.

Conhecemos bem o vosso partido. Sabemos da vossa profunda ligação ao povo e do compromisso que têm com a sua luta, interesses e aspirações. (...) Em Portugal poderão continuar a contar com a amizade e a solidariedade do Partido Comunista Português – que comemora este ano os seus 90 anos de luta – e de muitos e muitos portugueses para com a vossa causa nacional. Confirmando-vos a nossa vontade de prosseguir as relações de amizade, solidariedade cooperação entre os nossos dois partidos, terminamos com uma outra frase que marcou a nossa revolução de 1974 e que também neste comício, “Pelo futuro do Chipre, pelo Chipre do futuro”, tem toda a validade e actualidade: A luta continua!»



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