Comentário

Cinismo e ideologia dominante

Ilda Figueiredo

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Há, na situação presente, pelo menos três aspectos que revelam que se atingiu um nível de cinismo muito elevado na vida política portuguesa e que, simultaneamente, se está perante uma monstruosa campanha ideológica de manipulação da opinião pública, apenas para permitir a manutenção do poder económico e político, seja confundindo cidadãos eleitores, seja afastando-os do acto eleitoral para dificultar o voto em partidos que lutam, com coerência e determinação, contra estas políticas, como é o caso da CDU, que inclui o PCP e o PEV. Vejamos, alguns desses aspectos.

Em primeiro lugar, destaca-se a forma como o primeiro-ministro, José Sócrates apresentou um pedido de intervenção do FMI e das instituições da União Europeia, esquecendo tudo o que disse anteriormente sobre o assunto, tentando, agora, fazer crer que não havia outra solução e que não tem nada a ver com o assunto. A campanha ideológica montada em torno da rejeição do PEC IV, a que se seguiu, no final da semana passada, o congresso do PS, demonstra bem como se planeiam escolhas de momentos, incluindo de processos eleitorais. Sabia-se que tudo estava preparado para essa intervenção externa. Sabia-se da exigência do Eurostat quanto à inclusão de outros passivos no défice orçamental, o que punha em causa tudo o que estava a ser apresentado pelo Governo português sobre a redução do défice do Orçamento do Estado de 2010. Sabia-se que o Conselho de 24 e 25 de Março, ao contrário do que, em certo momento, José Sócrates e o seu ministro das Finanças julgaram, não ia flexibilizar a forma de intervenção do chamado Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, dada a intransigência da senhora Merkel, a braços com problemas internos na Alemanha por causa da sua política e dos maus resultados em algumas eleições em estaduais.

Em segundo lugar, destaca-se o alijar de responsabilidades do PSD, do CDS e do próprio Presidente da República, que apoiaram políticas e medidas que conduziram Portugal a esta grave situação de dependência económica e política. Sabe-se bem como sempre estiveram de acordo com privatizações de sectores estratégicos, como apoiaram a nacionalização dos prejuízos do BPN e os apoios ao BPP, como deram prioridade ao polémico negócio dos submarinos, como estiveram ao lado da flexibilidade laboral e desvalorização do trabalho, como aceitaram os diversos PEC, com excepção do último, sabendo-se, agora, que era porque pretendiam ir mais longe. Veja-se o que Passos Coelho, do PSD, disse, posteriormente à rejeição do PEC IV, sobre aumento do IVA, privatização da CGD, cortes salariais ou legislação sobre despedimentos.

Em terceiro lugar, a forma como alguns se posicionam, nesta época eleitoral, para não perderem o comboio do poder e das benesses pessoais, mesmo que isso signifique negarem tudo o que disseram para conseguir uma grande percentagem de votos nas últimas eleições presidenciais. O caso mais escandaloso é o do médico Fernando Nobre. Depois de tudo o que disse, na última campanha eleitoral, sobre a sua independência, e de ter negado qualquer intervenção partidária nas próximas eleições legislativas, menos de três meses depois, aceita, não só ser o cabeça de lista do PSD em Lisboa, como aparece posicionado para uma eventual candidatura à presidência da Assembleia da República.

Por último, apenas uma referência ao contexto em que tudo isto se desenvolve, ao pano de fundo que serve de suporte às políticas e práticas dos governantes portugueses e dos partidos que os grupos económicos e financeiros apoiam. Basta ver o que consta das conclusões do Conselho Europeu de 24 e 25 de Março de 2011, quando, no anexo II, nas alusões à ficha descritiva do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) é dito o seguinte:

«O acesso financeiro à ajuda do MEE será concedido com base numa rigorosa condicionalidade política, no âmbito de um programa de ajustamento macroeconómico, e numa análise igualmente rigorosa da sustentabilidade da dívida pública, a efectuar pela Comissão e pelo FMI, em concertação com o BCE. O Estado-Membro beneficiário deverá instaurar uma forma adequada de participação do sector privado, de acordo com as circunstâncias específicas e em total sintonia com as práticas do FMI.»

Esta é a demonstração claríssima do conceito de «democracia» do capitalismo monopolista, no aprofundamento da sua fase imperial, onde, mesmo as questões formais, começam a ser esquecidas, e a palavra democracia fica vazia de conteúdo.



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