Comentário

Praça Al-Tahir, Cairo, 2011

João Ferreira

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«O que se passa no Egipto é mais do que uma revolta mas (ainda) menos do que uma revolução». Assim nos descreve o egípcio Samir Amin o processo em curso no seu país, ali a poucos metros da praça Al-Tahir, onde durante vários dias centenas de milhares de pessoas marcaram presença ininterrupta, exigindo o fim do regime de Mubarak.

Mas é de «revolução» que todos falam nos dias que correm. Nas ruas, as manifestações prosseguem exigindo que se cumpra a «revolução» e recusando qualquer passo atrás. Como em qualquer revolução, a juventude tem um papel determinante em todo o processo. São jovens, muito jovens, a maioria dos que empunham cartazes, agitam bandeiras nacionais e gritam palavras de ordem, desafiando a proibição de manifestações (recentemente decretada pelo Conselho Superior das Forças Armadas) e a sua apertada vigilância por parte do exército, omnipresente. Como em qualquer revolução, o processo em curso no Egipto faz-se por alguém e contra alguém; os primeiros têm muito a ganhar, os segundos muito a perder e por isso reagem, procurando reverter o processo ou, pelo menos, contê-lo dentro de limites considerados «aceitáveis». Como em qualquer revolução, ela serve de referência ao correr do tempo: nas conversas, ouvimos amiúde as expressões «antes da revolução» e «agora, depois da revolução».

Durante as mais de três décadas do regime de Hosni Mubarak, o Egipto constituiu uma peça-chave do domínio imperialista no Médio Oriente e no Norte de África. O regime serviu os interesses económicos e geoestratégicos dos EUA, dos seus aliados e da União Europeia, que agora hipocritamente clamam por liberdade e democracia neste e noutros países da região. A UE, desde há quase duas décadas, tem na chamada Parceria Euro-mediterrânica um instrumento central de domínio económico e geopolítico da região. Esta parceria assenta nos chamados Acordos de Associação, que prevêem, entre outros aspectos, a criação de zonas de livre comércio, a liberdade de circulação de mercadorias e de capitais e o direito de estabelecimento e de prestação de serviços. Em 2004, a UE assinou um destes acordos com o Egipto. Na altura, e posteriormente em diversas ocasiões, várias organizações egípcias denunciaram as violações dos direitos humanos no país, a falta de liberdade, a existência de milhares de prisões ilegais e a prática de tortura. Denúncias convenientemente ignoradas, ainda hoje.

A política de relações externas do regime sempre foi indissociável dos desenvolvimentos no plano interno: da concentração capitalista, do acentuar das desigualdades e clivagens no plano social, da restrição das liberdades fundamentais, da repressão, da ausência de democracia.

Este é um aspecto claramente apreendido pelo movimento revolucionário democrático que irrompeu no país no início do ano: a associação estreita entre a miséria em que vive a esmagadora maioria do povo, o carácter despótico do regime e a política de submissão, no plano internacional, aos interesses dos EUA e de Israel. Por isso o movimento tem um claro cariz anti-imperialista. A revolução por que luta é uma revolução democrática e nacional.

Este não é um movimento juvenil, mesmo se a juventude tem nele um papel determinante. As suas raízes encontram-se na luta corajosa e persistente de muitos, ao longo dos últimos anos, mesmo se foi a partir dos acontecimentos na Tunísia, no início deste ano, que tudo ganhou uma dimensão inesperada e avassaladora. Das manifestações de solidariedade com a Palestina, impulsionadas pelo Partido Comunista do Egipto no início da década, às greves dos trabalhadores da indústria têxtil em 2007 (nas quais as mulheres tiveram um destacado papel), depois alargadas a outros sectores em 2008, 2009 e 2010, e nas quais os comunistas voltaram a ter uma acção fundamental, tudo isto contribuiu decisivamente para se chegar ao actual patamar de luta. Este não foi um fenómeno que saltou do mundo «virtual» das redes sociais da Internet para as ruas, mesmo se estas redes tiveram um papel importante, numa dada fase do processo, no reforço da ampla frente social de luta contra o regime e no seu alargamento a certas camadas sociais.

Mas como avisa Samir Amin, para o imperialismo «o Egipto é um país demasiado importante para que se permita que seja um país democrático», já que, a sê-lo, só poderia seguir uma via de esquerda anti-imperialista.

O delta do Nilo é hoje palco de uma luta intensa, difícil e complexa, que inevitavelmente se prolongará ainda por muito tempo.



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