Dedicação e coragem
O Avante! é, em todo o mundo, o jornal que mais tempo resistiu na clandestinidade – sempre composto, impresso e distribuído no interior do País, o que também faz dele um caso único. Para que tal fosse possível houve que montar um poderoso e minuciosamente organizado aparelho clandestino, capaz de iludir a polícia e resistir às suas constantes perseguições. Mesmo nas raras vezes em que a repressão localizou e assaltou uma tipografia clandestina, logo outra entrava em funcionamento garantindo a saída atempada do Avante! e de outros jornais e folhetos.
Por detrás deste notável feito está a dedicação, a coragem e a entrega sem limites de numerosos comunistas que consagraram a sua vida à imprensa do Partido. Vidas inteiras passadas a compor, à meia-luz, com minúsculas letras de chumbo, milhares de páginas do Avante!; a imprimi-las com o pesado rolo; a defender a tipografia de forma a não levantar suspeitas; a desmontar tudo e a fugir, sempre que se desconfiava que a polícia pudesse andar a rondar; e a montar tudo novamente noutro sítio. Vidas dedicadas a fazer chegar os textos aos tipógrafos e os jornais ao povo, calcorreando milhares de quilómetros a pé ou de bicicleta, sempre sob a ameaça de prisão – que poderia significar, e em alguns casos significou, a tortura e a morte.
José Moreira morreu na tortura em 1950, recusando-se a entregar à PIDE a localização das tipografias clandestinas. José Dias Coelho, artista plástico autor de algumas das mais célebres ilustrações que embelezaram as páginas do Avante!, caiu varado às balas da PIDE 11 anos depois. A professora primária Maria Machado foi torturada e não denunciou os seus camaradas, e Joaquim Rafael acabaria por sucumbir poucos dias depois do 25 de Abril com a saúde arrasada pelo chumbo com que trabalhou em 25 anos enquanto tipógrafo clandestino. São alguns dos heróis que fizeram da história do Avante! um exaltante percurso, que continua.