Eles são parte do problema, não da solução

Jorge Pires (Membro da Comissão Política)

Os responsáveis políticos pela situação que o País atravessa têm rosto

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Foto LUSA

Fizeram-no sempre acompanhados de um coro de comentadores políticos, autênticos prosélitos defensores da política de direita que procuraram esconder o que disseram e defenderam no passado. Num quadro de previsível quebra de 1,3% do PIB, de acordo com as previsões do Banco de Portugal; de uma Balança Comercial deficitária em cerca de 10% com uma dependência dos nossos principais parceiros comerciais em cerca de 75%; de baixos níveis de poupança interna; com o País mergulhado numa espiral de endividamento global líquido perante o exterior (Estado, Banca e empresas), tendo atingido em 2009 cerca de 109% do PIB – quando em 1996 era de apenas 10,3% –, a solução para os problemas económicos e sociais do País não passa por mais do mesmo.

É na dívida externa global, cada vez mais asfixiante, que se encontra o problema central do nosso País. A situação que o País atravessa não é uma inevitabilidade. Ela é o resultado de uma estratégia de recuperação capitalista sustentada em grande medida num processo de privatização de empresas com actividade em sectores básicos e estratégicos, no abandono sistemático da nossa agricultura e da frota pesqueira e na financeirização da economia. Uma estratégia que colocou o controlo de importantes empresas e sectores nas mãos do grande capital nacional e internacional e destruiu uma parte significativa do nosso aparelho produtivo.

Os responsáveis políticos pela situação que o País atravessa têm rosto! Foram eles que nos venderam esta política como a única possível, como a que melhor servia o País e os portugueses. Mário Soares, Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso, José Sócrates, mas também António Barreto, Veiga Simão, Mira Amaral, Teixeira dos Santos, o tal que se gaba de ser o governante que mais privatizou em Portugal, são, entre muitos outros, os rostos da política de recuperação capitalista e de submissão aos interesses dos grandes grupos económicos e por isso são parte do problema e não da solução.

 

Compromissos...

 

Quando, em 1976, durante o primeiro Governo de Mário Soares, o Financial Times informava que os EUA tinham concedido um empréstimo de emergência de 300 milhões de dólares a Portugal, com o compromisso de Mário Soares impor disciplina nas fábricas, o mote estava dado. A partir daí começa o processo de descapitalização das empresas do SEE, primeiro passo para a desintegração de algumas delas e a privatização de outras, o ataque criminoso contra a Reforma Agrária, com a famigerada lei Barreto (que teve como consequência o aumento brutal do desemprego nos campos do Alentejo e do Ribatejo), e o aumento significativo do défice agro-alimentar do País, agravado ainda com o abatimento de parte substancial da nossa frota pesqueira.

Num contexto político marcado pelo processo de integração capitalista a partir de Janeiro de 1986, com a adesão à CEE e com com a destruição sistemática do aparelho produtivo, com parte da riqueza criada a ser desviada pelos grupos económicos para a especulação financeira em vez de ser direccionada para a modernização da nossa indústria e do alargamento da produção nacional, Portugal foi perdendo soberania e ficou mais dependente do exterior.

Se nos últimos 25 anos (1986-2010), tantos quantos temos de integração europeia, o crescimento médio anual do PIB (em volume) foi de 2,7%, muito aquém das necessidades de um país como Portugal, esse valor reduziu drasticamente para 0,7% na última década.

O caminho para a saída da crise é o da exigência de uma ruptura com a política de direita e de uma política que promova o crescimento económico e valorize os salários e as pensões de reforma, que assegure ao Estado o controlo dos principais sectores estratégicos, que afirme a independência nacional.

A campanha nacional do PCP Portugal a produzir releva para primeiro plano uma questão central para o desenvolvimento económico do País: o aproveitamento dos recursos e capacidades do País através da reactivação do aparelho produtivo nacional, como condição para criar emprego, melhorar os salários e garantir a soberania nacional.



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