O regresso dos maus intérpretes

Correia da Fonseca

Os últimos dias de 2010 não foram propícios ao senhor professor Cavaco Silva: foram tempo de debates na televisão em que por obrigação teve de participar, e é transparente que o senhor professor não gosta de debates. Essa aversão terá várias razões, naturalmente que todas elas excelentes, a primeira das quais será a de que os debates dão oportunidade a que uns sujeitos sem méritos que aos dele se comparem surjam a contradizê-lo. E em público, o que agrava a falta de respeito que em qualquer circunstância a mera contradição já transporta. Para mais, quando o público é telepúblico a situação implica milhões de olhos e de ouvidos mesmo quando mais tarde se possa dizer que a audiência foi escassa, e que tanta gente esteja a testemunhar as impertinências de quem o contradiga é situação que enerva Cavaco Silva, candidato a reincidir na domiciliação oficial no Palácio de Belém. Porque ele é diferente, é feito de outra massa. Em anos já remotos, quando jovens da sua idade já andavam «metidos na política», o que até era proibido, Aníbal Cavaco Silva, saudavelmente, fazia atletismo. E estudava, muito e bem, nos livros onde aprendeu matérias que o orientariam para o resto da vida sem qualquer desvio e com activo repúdio por doutrinas que levaram muitos dos seus companheiros de geração a conhecer por dentro as cadeias do regime. Estes traços já antigos do percurso do actual PR e simultaneamente candidato a continuar a sê-lo configuram o perfil de um homem que dele próprio disse um dia, como inesquecivelmente se sabe, que não tinha dúvidas e raramente se enganava. Pode ter acontecido que os anos mais recentes tenham introduzido alguma flexibilidade, com perdão da palavra agora muito em uso num contexto diferente, naquela rara e notável afirmação de autoconfiança, mas não há quaisquer indícios de que o actual Cavaco Silva se tenha rendido minimamente ao valor da dúvida como precaução intelectual. De onde, compreensivelmente, o seu horror pelo debate, pela contradição, pela necessidade de suportar a discordância afirmada cara a cara. Por isso surge com sinais de enervamento nos ecrãs dos nossos televisores quando a candidatura o obriga a suportar tudo isso. E, sendo assim, não é absurdo, antes pelo contrário, que os nervos lhe acentuem a pouca vocação para a expressão oral que sempre o caracteriza pelo menos quando não se trata de expor uma lição antecipadamente preparada com utilização dos tratados do costume.

 

Também por isto

 

Ora, aconteceu que num desses debates, ou até em mais de um, surgiu o inevitável: o questionamento de Cavaco Silva acerca de um negócio financeiro, aliás de resultados excelentes, por ele realizado com a compra e posterior venda muito atempada de acções da SLN-Sociedade Lusa de Negócios, empresa que seria uma espécie de irmã gémea, ou talvez mais exactamente irmã de leite, do BPN de horrenda, conspurcada e comprometedora memória. Pela resposta ou pelas respostas dadas por Cavaco Silva se ficou a saber, entre outras coisas, que tudo se terá passado com inexcedível correcção, o que significa que a oportuna venda dos títulos não foi apoiada em nada que se pareça com a chamada «informação privilegiada» que a lei proíbe e pune. Tudo bem. Porém, houve um momento em que Cavaco Silva não resistiu a acrescentar uma observação acerca da administração actual do BPN, que já nada tem com a que roubou milhões e está a contas com a Justiça. As palavras do candidato Cavaco Silva não foram claras mas pareceram configurar uma insinuação caluniosa. De onde, como era inevitável, a explosão de indignações, de acusações da tentativa de transferir para os actuais gestores responsabilidades gravíssimas que pesam sobre os anteriores. Veio agora o senhor professor dizer que as suas palavras foram «mal interpretadas». Tê-lo-ão sido, mas isso é o diabo. Porque o senhor professor Cavaco é, precisamente, um professor, e um professor tem de se saber explicar de modo a ser bem interpretado. Também porque o senhor Presidente Cavaco Silva é um Presidente, e um Presidente tem o dever de sempre se exprimir de modo a ser adequadamente interpretado. Ora, não é a primeira vez que Aníbal Cavaco Silva se queixa de ter sido mal interpretado, o que aponta para uma eventual deficiência crónica em matéria de expressão clara, embora sempre seja fácil endossar a culpa para os «maus intérpretes». De qualquer modo, é conveniente usar de prudência. E a prudência aconselha a que, também por isto, o senhor professor deixe de ser Presidente.



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