Agir e preparar a acção – II
Fala-se repetidamente em solidariedade no abstracto, sem se referir como ou porquê devemos ser solidários. E quando o não devemos ser. É o caso, por exemplo, das práticas políticas, religiosas, económicas e financeiras; dos esquemas de conquista de influências, das formas públicas e privadas de enriquecimento e de suborno, do funcionamento da Justiça, da Saúde, do Ensino, do Trabalho, do sistema de redistribuição da riqueza, etc., etc. Nestes casos, os que mais corrompem e roubam, remetem o cidadão comum para o cumprimento dos princípios constitucionais que eles próprios violam impunemente. Depois, apelam à solidariedade entre os exploradores (no meio dos quais eles se contam) e as vítimas da exploração que as suas práticas capitalistas por todos os meios procuram esmagar. São simultaneamente polícias e ladrões, imorais e moralistas, tiranos e democratas. Com esses, nenhuma solidariedade deve haver.
Actualmente, vamos passar a uma nova fase de aceleração do processo de exploração do homem do povo e constatar de que forma ele irá reagir à agudização da sua exploração. Seremos não só testemunhas mas também participantes activos nas lutas de classes e nos embates sociais em que os «punhos de renda» vão ceder lugar à acção. Viveremos horas duras.
O povo português não provocou esta situação. Foi a cupidez dos outros, dos banqueiros seus patrões. O povo sabe que será ele o grande sacrificado nas lutas que se aproximam. Mas não se deixará enganar pelas grandes mentiras que o enojam.
Nem consentirá em ser solidário com os seus carrascos ou com os seus repressores tradicionais – políticos e padres – que à sombra de uma imagem por eles próprios concebida e manipulada continuam a tentar «dividir o país, para reinar».
As amnésias dos bispos e a pobreza dos pobres
O capitalismo, com as suas alucinações de grandeza e de poder, produziu e produz a desgraça no mundo. Actualmente, mesmo as sociedades ocidentais mais ricas vivem situações de crise económica, desemprego, inflação, descrédito político e de alastramento da corrupção. Portugal é um país mais pobre mas ostenta todos estes índices de degradação. O Estado português encontra-se claramente à beira da bancarrota. Nação apostólica, católica e romana por definição, é das que maiores índices de corrupção ostentam.
Este estado de coisas ainda mais se agrava com a fase política que vivemos em campanha eleitoral. O poder que está deturpa números e realidades segundo o que mais lhe convém. O poder que virá promete mundos e fundos desde que recolha votos. Os «maus», os «criminosos», são sempre aqueles que fazem outras leituras das realidades. Cidadãos solidários na pequena política, só nas culpas que a «todos cabem» pelo país estar no estado em que está.
A hierarquia católica, cérebro de tantas fraudes e de tantos crimes, tudo conhece por miúdo e quase tudo cala. Disse em recente entrevista (DN, 26.12.10) D. José Policarpo, cardeal-patriarca, à guisa de justificação: «A Igreja tem um papel: criar na população uma atitude de esperança…é através da lei do orçamento que temos de ajudar as pessoas a viver com coragem e sem revolta!».
Clara confissão com duas faces. Em teologia, esperança será aquilo que os teólogos quiserem que seja. Mas em política, esperança é um dos elos da cadeia dinâmica que passa pela informação, pela reflexão, pela denúncia, pela crítica, pela proposta e termina no trabalho construtivo do projecto e da acção. Não será com este jogo duplo que a hierarquia católica conseguirá recuperar prestígio entre o povo. O facto é que a Igreja nada de novo tem a propor. Não dispõe de alternativas e só gere bem os seus próprios negócios: misericórdias, ONGS, IPSS, fundações, bancos, offshores, ensino privado, multinacionais, farmacêuticas, seguradoras… um império sem princípio nem fim! Um universo fabuloso digno das «Mil e uma noites» e dos grandes escândalos financeiros do Vaticano!
Já no final da entrevista, D. José queixa-se dos ataques que, em sua opinião, o actual Governo constantemente desfere contra a Igreja. É atitude que mal se entende, visto Sócrates ser católico convicto que vai ao ponto de se benzer antes de falar em público.
Se, todavia, mesmo assim tais ataques se verificam, explica o cardeal patriarca segundo a sua perspectiva moral: «É porque, quando é preciso apertar o cinto e cortar, faz-se onde é mais fácil. E a Igreja não tem poder reivindicativo para impedir esses cortes». É preciso desfaçatez!
Terminemos com outra breve citação do cardeal (DN, 26.12.2010: «A reeleição de Cavaco Silva seria favorável à pacificação da situação nacional… CS habituou-se a que os católicos nas suas reacções falem baixinho».