Segredo, ou quase
Ao longo de semanas, andei a ser enganado. Constando-me que a RTP iria transmitir uma segunda dose da série «Grandes Livros», de saudosa memória, dispus-me a não perder nem um só desses programas. Para mais, falava-se em obras de Soeiro Pereira Gomes e de Carlos de Oliveira, entre outros, gente que de um modo geral não parece ser do conhecimento da RTP. Por isso, achei que seria boa ideia socorrer-me do apoio da Net para saber ao certo em que dias e horas os programas seriam transmitidos, sendo já adquirido que o seriam na RTP2, canal tranquilo, com pouca gente a ver, para onde é de regra que seja exilado tudo quanto tenha cheiro a cultura ou mesmo apenas que com cultura se pareça. Assim, fui-me à Net, chamei «Grandes Livros RTP», premi a tecla de pesquisa, pareceu-me ser este um procedimento correcto. E logo lá surgiu a resposta à minha ignorância: a série seria transmitida a partir de finais de Outubro e ao fim das tardes de segundas-feiras. Seguiu-se então a segunda fase da minha busca: semana após semana, às segundas-feiras, lá estava eu e porventura mais alguns telespectadores à espera de que na «2» surgisse o programa anunciado. Não surgiu. Nunca, durante todo esse tempo. É certo que, para minha vergonha e eterno arrependimento, não procurei confirmação nas páginas do jornal diário «de referência» que entra em minha casa por razões diversas, entre as quais avulta a necessidade de saber até que lonjuras vão certos órgãos de manipulação social: é de crer que essa diligência dissiparia o engano ledo e cego em que andava, mas o caso é que confiei na informação prestada na Net e por aí me perdi. Ou melhor, por aí perdi os três programas iniciais da série. Até que no passado domingo acordei do sonho ou pesadelo em que me deixara envolver: afinal, a série «Grandes Livros» terá estado em antena em sucessivos domingos. Na «2», sim, escusado é dizê-lo, e às 19 horas, altura em que é menor a audiência em qualquer canal e muito provavelmente mais ainda naquele. Compreende-se: não convém trazer aos olhos e ouvidos do telespectador programas que lhe permitam descobrir que a literatura existe, que é apaixonante, que é urgente e necessário que a conheçamos ou que com ele reconciliemos os nossos hábitos. E essa inconveniência acentua-se quando se trata de incluir numa série consagrada a grandes livros obras de um Carlos de Oliveira ou de um Soeiro Pereira Gomes, sendo que quanto a este mais valerá que o cidadão comum pense que se trata apenas da designação de mais uma rua de Lisboa entre tantas outras.
A beleza e a honra
Temos, pois, que está em transmissão uma segunda dose de «Grandes Livros» na RTP2 e, tanto quanto a dura experiência me ensinou, ao fim das tardes dos domingos, nada garantindo, é claro, que esta colocação horária se mantenha doravante. Repare-se e sublinhe-se que é uma colocação altamente compatível com a tradição dos critérios da RTP relativamente a coisas da cultura em geral e da literatura em especial: transmita-se, pois sim, vá lá, mas de modo a que não dê muito nas vistas. Por mim, despertado do equívoco a que a Net me induzira não decerto por espontânea deliberação sua, ainda cheguei a tempo de assistir à transmissão do programa dedicado a «Uma Abelha na Chuva» e a Carlos de Oliveira. E fiquei completamente rendido, maravilhado. O programa, assinado pelo realizador João Osório, era de alta qualidade em todos os seus aspectos. Era visualmente muito belo, para isso contribuindo as imagens de um telefilme de Margarida Gil e de um filme de Fernando Lopes. Era esclarecedor graças a intervenções de figuras como Manuel Gusmão, Baptista-Bastos, Pedro Mexia, Fernando Lopes e Maria Barroso (que salientou especialmente a posição de Carlos de Oliveira como cidadão resistente ao fascismo). Era, para os tempos que vão correndo, quase surpreendentemente isento na avaliação do Neo-Realismo: foi Fernando Lopes e não Manuel Gusmão quem surgiu a sublinhar que o Neo-Realismo foi «não apenas uma coisa estética, mas também uma coisa ética». Chegou ao ponto de por dois ou três segundos ter surgido nos ecrãs dos nossos televisores o rosto de Karl Marx, mas não foi essa fugidia visão que me conquistou: o meu encantamento decorreu do nível global do programa e da manifesta honradez que impregnou a sua feitura. Valores que podem explicar, ou não, a forma discreta como foi transmitido. Que seguramente motivam o meu lamento por o ter sido quase em segredo.