«Alívio»
O Público anunciava em primeira página que «UE recebeu com alívio pedido de ajuda ontem feito pela Irlanda», explicando que a Irlanda, «submetida durante vários dias a uma pressão intensa por parte dos países europeus, resignou-se a pedir ajuda financeira da zona euro para os seus bancos em dificuldades», acrescentando que após o pedido ter sido aceite de imediato pelos ministros das Finanças dos Dezasseis países do euro e depois pela totalidade da União Europeia, estes emitiram um comunicado onde afirmam que «saúdam o pedido do Governo irlandês».
Aqui está, em alvar franqueza, o que verdadeiramente conta para todos os governos da União Europeia, nesta questão do défice da Irlanda: a ajuda «aos bancos em dificuldades». Portanto, os rios de dinheiro que os poderosos da UE se preparam para emprestar à Irlanda (para mais tarde lhos cobrarem com juros, sublinhe-se...) continuam a ter como objectivo central tapar o buraco sem fundo que estes mesmos bancos abriram na economia da Irlanda. Entretanto, quem vai pagar tudo isto é o povo irlandês.
O «alívio» destes governantes europeus acaba por bater certo: é que o alívio só se justifica quando quem dele beneficia são os amigos. Ora ninguém tem dúvida de que os grandes capitalistas são os melhores – e únicos – amigos dos mandantes da União Europeia.
Ajudas
No entretanto, e cá pelo burgo, os esfomeados continuam a alastrar de Norte a Sul com uma rapidez assustadora. Mais uma prova disso está noutra notícia de primeira página, desta vez no Jornal de Notícias, que anuncia que «Banco Alimentar bateu recorde de ajuda a pobres». Os números são esmagadores: «Até Junho já tinham sido auxiliadas mais 24 mil pessoas do que durante o último ano», enquanto «em Lisboa há mais de 72 mil indivíduos que são apoiados por 350 instituições».
Para estes, evidentemente, é que não vão as preocupações dos «governantes europeus». Nem do Governo de José Sócrates. Ou de quem já saliva de tanto ansiar por o substituir, como a nova troupe do PSD liderada por Passos Coelho...
Fisco
Continuando nas notícias de primeira página, eis outra: «Fisco perde um milhar de funcionários». E esclarece-se: a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos vai ficar este ano sem um milhar de funcionários, que já estão reformados ou apenas à espera da conclusão dos respectivos processos de reforma. Acrescenta a notícia que «esta situação irá agravar ainda mais as condições para aumentar a eficácia da colecta e para combater a fraude e evasão em ano de crise».
É apenas mais um exemplo do estilo casuístico da governação de Sócrates: por um lado, está tão obcecada em cortar despesas à custa dos salários da Função Pública, que não hesita em despedir em massa, como fez (ou «apadrinhou», melhor dizendo) no despedimento de 330 e tal trabalhadores da Groundforce no aeroporto de Faro; por outro, negligencia tão completamente os seus supostos interesses em cobrar impostos, que nem cuida atempadamente da reposição de quadros num sector tão estratégico para as finanças públicas, como é a máquina do Fisco...