Franceses querem derrotar Sarkozy

Revolta cresce e amplia-se

Tráfego aéreo fortemente perturbado, transportes urbanos paralisados, refinarias e portos bloqueados, penúria de combustíveis – a maré de revolta cresce no segundo mês de protestos contínuos em França.

Votação do projecto de reforma adiada pela segunda vez

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Cego e surdo ao agravamento da crise social, o governo de Sarkozy não quer dar o braço a torcer, insistindo em que o aumento da idade da reforma será aprovado, custe o que custar. No entanto, a votação do projecto no Senado, prevista inicialmente para a semana passada, já foi por duas vezes adiada, sinal das hesitações na maioria de direita que prefere esperar para ver.

Todavia, a anunciada erosão do movimento de protesto não se tem verificado. Pelo contrário, os próprios números do governo, deliberadamente rebaixados, dão conta de uma adesão crescente às sucessivas jornadas de greves, que totalizam seis, desde Junho, quatro das quais desde Setembro, a que se somam dois sábados de manifestações.

Tanto os números do governo como dos sindicatos indicam que o recorde de participação foi atingido no dia 12. Cerca de 3,5 milhões de pessoas participaram em mais de 240 manifestações nas grandes e pequenas cidades do país. Três dias depois, sábado último, mais de dois milhões voltaram a encher as ruas.

Para além dos impressionantes desfiles em Paris (350 mil pessoas) ou em Marselha (260 mil), há ainda a assinalar a poderosa manifestação em Toulouse (145 mil pessoas), talvez uma das maiores acções de massas jamais realizada nesta cidade.

Mas o sentimento generalizado de revolta é igualmente ilustrado pela adesão maciça da população de pequenas cidades como é o caso de Niort, sede do departamento de Deux-Sèvres, no centro Oeste da França. Com um total de 60 mil habitantes, 15 mil pessoas saíram às ruas no dia 12 para dizer não à retirada de direito de aposentação, ou seja, um quarto da população participou na manifestação de dia 12.

 

Ir até ao fim


A notória radicalização da luta leva alguns observadores a comparar este movimento com a greve geral de 1936, na sequência da qual foi conquistado o direito a férias, ou com Maio de 1968, quando 11 milhões de trabalhadores entraram em greve por tempo indeterminado e no país surgiu uma situação revolucionária.

Diferenças à parte, não restam dúvidas de que em vários sectores existe a determinação de levar as coisas até ao fim, até que o governo ceda e retire o seu odioso projecto. É o caso das 12 refinarias de França, que. uma após outra, suspenderam a actividade, provocando uma crescente penúria de combustíveis. Na terça-feira, mais de 2500 postos de abastecimento estavam secos. A escassez de gasolina poderia também atingir os aeroportos nos próximos dias.

Outro exemplo do ambiente insurreccional que se vive em França é o prosseguimento da greve do porto de Marselha-Fos, o maior do país. No início da semana, após 22 dias consecutivos de paralisação, eram já 65 os navios bloqueados ou à espera de descarregar, incluindo 47 petroleiros, segundo informou a direcção portuária.

A adesão aos protestos por parte dos camionistas e dos estudantes é mais um indicador de que o movimento poderá prosseguir mesmo que o Senado aprove, hoje, quinta-feira, 21, o projecto do governo.

A direita francesa tem memória fresca da pujança das acções estudantis quando, em Abril de 2006, após dois meses de intensos protestos, se viu forçada a revogar o diploma que criava o contrato de primeiro emprego, transformando os jovens em trabalhadores de segunda classe.

Na terça-feira, a União Nacional dos Liceus, dava conta que 1200 escolas secundárias estavam em greve, 850 das quais totalmente bloqueadas.

No mesmo dia, camionistas iniciaram acções de marcha lenta e barragens em várias auto-estradas francesas.

Um último indicador de que os protestos irão continuar foi fornecido pelo barómetro CSA, mostrando um expressivo apoio de 71 por cento dos franceses à jornada de luta da passada terça-feira.



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