Ninguém pára o processo revolucionário
O presidente do Equador escapou a uma tentativa de Golpe de Estado e assassinato. A mobilização do povo foi determinante para garantir a ordem constitucional.
«Rafael Correa esteve sequestrado 12 horas»
Nas primeiras horas da manhã da passada quinta-feira, dia 30, o presidente do Equador, Rafael Correa, deslocou-se ao principal quartel da policia na capital, Quito, para falar com um grupo de agentes insurrectos. Aparentemente, estes não aceitavam a nova Lei Orgânica do Serviço Público, aprovada na véspera pelo Parlamento, alegando que a norma lhes retiraria benefícios adquiridos.
À tentativa de esclarecimento responderam os amotinados com exigência da demissão do presidente, com vivas ao ex-presidente Lúcio Gutierrez e com violência. O chefe de Estado foi agredido e atacado com gás lacrimogéneo e à pedrada.
Por esta altura, já grupos de agentes em vários pontos do país haviam seguido o mesmo rumo. Mesmo unidades que tinham saído em missão de patrulhamento regressaram às bases. Nas estradas e principais vias de acesso, ou à porta dos quarteís, os protestos policiais acompanhados por homens de cara tapada multiplicaram-se à volta de pneus queimados.
A notícia da ausência de forças de segurança pública em quase todo o território espalhou-se. Bandos criminosos, estranhamente rápidos, assaltaram bancos, lojas ou centros comerciais. Os órgãos de comunicação social deram ampla cobertura aos acontecimentos difundindo a imagem de um país mergulhado no caos.
12 horas de sequestro
Em Quito, depois de agredido, Correa foi levado para um hospital a fim de receber tratamento. A unidade foi cercada pelos sublevados e o presidente ficou confinado.
O sequestro, a ocupação dos aeroportos do Equador e a suspenção dos transportes públicos, os apelos da oposição à demissão de Correa, a tomada das principais antenas de comunicação do país, os assaltos ao canal de televisão estatal e à Assembleia Nacional, liderado por Pablo Guerrero, advogado do ex-presidente Lucio Gutiérrez (que a partir da CNN não se cansou de acusar o governo de ilegítimo e corrupto) são acções que não deixam margem para dúvida: tratava-se de um golpe de Estado.
Prontamente, milhares de pessoas saíram às ruas para defender a democracia, mobilização que se revelou determinante para travar o golpe.
Depois do ministro da Defesa ter garantido aos comandos militares que os supostos prejuízos da nova lei não passavam, afinal, de desinformação, a tropa tomou posição ao lado do presidente equatoriano.
No hospital, em Quito, ao fim de cinco horas de silêncio e incerteza, o presidente falou ao país confirmando o resgate mas garantiu que governava a partir do centro médico. «Saiu daqui como presidente ou como cadáver», declarou.
Junto ao Palácio de Carondelet, sede do executivo, milhares de pessoas foram reprimidas com balas de borracha e gás lacrimogéneo. No Hospital da Polícia Nacional, a multidão que marchou em defesa da legalidade constitucional teve a mesma sorte.
O sequestro terminou, ao fim de 12 horas, quando grupos das operações especiais romperam o cerco e resgataram o presidente do local. A operação deixou dois mortos e centenas de feridos, aos quais se juntam outras duas vítimas e outras tantas centenas de injuriados nos confrontos durante o dia.
Mesmo à saída da unidade de saúde, os golpistas ainda procuraram matar Rafael Correa. O veículo que o transportou de regresso Palacio de Carondelet foi atingido por cinco balas de elevado calibre.
A revolução cidadã não pára
Pouco depois de ter sido libertado, Correa falou ao povo. Agradecendo aos órgãos do Estado, aos jornalistas que não o abandonaram colocando em risco a própria vida, às instâncias internacionais (particularmente à Unasul, que reuniu de emergência em Buenos Aires) e aos governos da América Latina por não o terem abandonado e por terem respondido com celeridade e firmeza à tentativa de repetição do golpe das Honduras, o presidente sublinhou o papel das massas populares na derrota da intentona.
«À revolução cidadã ninguém a vai parar», expressou.
PCP condena golpe
Reagindo aos acontecimentos no Equador, o PCP condenou «a frustrada tentativa de golpe de Estado no Equador protagonizada por sectores instrumentalizados pela agenda golpista das forças de direita e do imperialismo» e expressou «a sua solidariedade ao governo legítimo e constitucional do Presidente Rafael Correa, ao povo equatoriano, às instituições que se mantiveram leais à democracia e à legalidade constitucional e às forças sociais e políticas que, nas ruas, assumiram desde o primeiro momento a defesa da integridade física do Presidente, da democracia e da legalidade constitucional».
No mesmo sentido, os eurdeputados do Partido no Parlamento Europeu, Ilda Figueiredo e João Ferreira, pronunciaram-se contra «a tentativa de travar o processo de mudanças democráticas em curso no país» e lamentaram «a ambiguidade da declaração da Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Catherine Ashton».