As contradições dos «pequenos e grandes» clubes desportivos

A. Mello de Carvalho

A forma de vida dos «pequenos» clubes populares de bairro e de aldeia, de acordo com a opinião generalizada, é muito problemática nos tempos que correm: deficiências graves no enquadramento administrativo e técnico, «clubite aguda», ou seja, problemas de relacionamento entre clubes de uma mesma área (por vezes surgindo de dissidências fortuitas), falta de meios de toda a ordem, dificuldade de acesso a instalações viabilizadoras da prática (o que limita a própria influência do clube), população frequentadora com baixa ou nula capacidade económica (trabalhadores, desempregados, jovens, etc.) o que impede uma actividade auto-sustentada (portanto agravando aquela limitação de influência), património próprio limitado (em especial em instalações adaptadas e espaços inadequados ou em mau estado de conservação (particularmente nas sedes), problemas de manutenção das suas equipas por falta de meios, etc. Frequentemente também porque os seus melhores elementos são sistematicamente recrutados pelos clubes do escalão seguinte (o que desencoraja o trabalho realizado por devoções incríveis que se vêem assim espoliadas do seu trabalho), ausência de perspectivas quanto à evolução futura, «sonho» irrealista de copiar o grande clube, ou inadequação de perspectivas às necessidades do momento.

A lista vai longa e não interessa, por agora, preocupar-nos em esgotar este conjunto de problemas que, no seu todo, traduzem a «via sacra» do associativismo desportivo que brota, com maior ou menor vitalidade, do seio das «camadas populares». Como se pode ver, a origem e as razões dos diferentes problemas não é a mesma. Se, nalguns casos, e certamente nos mais graves, a falta de meios é a questão primordial e diz respeito à forma como a sociedade encara a existência destes organismos, noutros casos são os próprios dirigentes que estão na origem das dificuldades devido à sua mentalidade, visão dos problemas e falta de conhecimentos.

Por outro lado, os «grandes clubes» não deixam de criar, ou, pelo menos, de agravar, algumas daquelas dificuldades, não só pelo recrutamento dos melhores elementos que os «olheiros» sinalizam por toda a parte, como também da própria «lógica» do seu funcionamento, subordinada à perspectiva da alta competição profissionalizada. Esta, coloca os «pequenos clubes» perante uma escalada dos meios indispensáveis ao preenchimento das necessidades criadas pelo «modelo» difundido pelos primeiros e que tem grande penetração na «opinião pública». Ao mesmo tempo, como os «grandes» possuem incomparavelmente maior capacidade de influência social e política e respondem mais fortemente às necessidades dos políticos, os meios financeiros são canalizados com muito mais facilidade para resolverem as suas dificuldades, com o grave cortejo de consequências socialmente negativas que se vão conhecendo, cada vez mais claramente, na actualidade.

Não se trata aqui de pôr em confronto os «grandes» e os «pequenos» clubes. Ambos são «filhos» de interesses idênticos e sofrem as mesmas influências. Por outro lado, não é correcto generalizar o «anátema» aos clubes maiores pois uns e outros seguem idênticos modelos de acção. Todavia, é evidente que nos primeiros os fenómenos atrás referidos se manifestam com mais força.

Contudo, existe um desejo de praticar «de outra forma», mais «leve», menos limitadora e mais «livre», a que o clube deve fornecer resposta. Não o fazendo é evidente que sofrem uma baixa dos seus efectivos, agravando a situação.

Todos os outros «modelos» de prática desportiva causam, no fundo, os mesmos efeitos devastadores sobre o clube popular inclusive o tão referido desporto para todos. Limitado de todos os lados, é legítimo perguntar se o pequeno clube de bairro, dentro ou na periferia das cidades, nas vilas e aldeias, tem condições para sobreviver.

Isto é tanto mais legítimo quanto se sabe que as exigências feitas ao dirigente e ao técnico benévolos são cada vez maiores, pelo que a sua «sobrevivência» ou «esperança de vida» é extremamente reduzida (um estudo francês fala na média de 2 anos e meio!). Para eles, a própria evolução do desporto, a sua complexificação e o entrecruzamento das funções que deve desempenhar constituem factores suplementares de desorientação e perplexidade, agravando, por isso, a situação.



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