Em português nos entendemos

Margarida Botelho

«Nós somos pela estabilidade no emprego!», respondeu, sem pestanejar, Passos Coelho à jornalista que lhe perguntou pelos motivos para defender o fim da proibição do despedimento sem justa causa. Sócrates, o primeiro-ministro do Código do Trabalho, do desemprego, das privatizações e dos cortes aproveita a deixa do PSD para gritar aqui d’el-rei que querem pôr o neo-liberalismo na Constituição, acudam que estão a pôr em causa o «estado social».

Confuso? Talvez noutro país ou noutra língua pudesse parecer contraditório dizer exactamente o oposto daquilo que se faz. No português que PS, PSD e CDS falam não passa de um estilo que faz escola. Se não vejamos:

- as alterações para pior do Código do Trabalho, promovendo a precariedade, desregulando horários e facilitando os despedimentos, foram apresentadas pelo Governo do PS e pelo patronato como instrumentos para… criar emprego;

- «A Escola Pública pode fazer a diferença» é o título do livro de memórias da governação de Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação do Governo PS e actual presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, campeã em título da competitiva modalidade que consiste em fechar o mais número de escolas no menor tempo possível – se bem que seguida de perto pela concorrente Isabel Alçada;

- fechar as urgências dos centros de saúde e as maternidades, ou aumentar as taxas moderadoras serve para… «melhorar o acesso», não dando a «ilusão de segurança» de ter um serviço de saúde logo ali à mão, contribuindo por isso para… a defesa do Serviço Nacional de Saúde;

- privatizar torna os serviços melhores e mais baratos, dizia-se. E agora vê-se o resultado: na conta da luz, nos bilhetes e nos horários do transporte, no abastecimento do automóvel, nos serviços bancários…

No português que o nosso povo fala desmascaram-se bem estes casos: são lobos com pele de cordeiro que atiram a pedra mas escondem a mão e que com papas e bolos querem enganar os tolos. O que vale é que a sabedoria popular ensina que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. E se há coisa que faz falta ao País é uma política de verdade, patriótica e de esquerda – que só com o PCP é possível.



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