Arte e transformação social
A Festa não seria a Festa se não associasse às mais variadas expressões artísticas e culturais de reconhecida qualidade uma vontade imensa de denunciar as injustiças – primeiro e decisivo passo para transformar o mundo que as cria e eterniza. É isso que fará, uma vez mais, o Avanteatro ao longo de dois dias e meio de teatro, música, dança, poesia e cinema – como sempre à disposição do visitante da Festa, qualquer que seja a sua origem, profissão ou formação.
2010 foi assumido pela União Europeia como o ano de combate à pobreza e exclusão social, embora tal iniciativa pouco mais esteja a ser do que um conjunto de belas palavras e piedosas intenções. Na prática, vê-se precisamente o contrário: o aumento do número de pobres, o alargamento do fosso entre estes e os mais ricos, bem como o surgimento de novas e mais extremas formas de exclusão social.
Na edição deste ano da Festa do Avante!, nomeadamente no Avanteatro, estarão presentes as questões sociais e a luta do nosso povo – traduzindo a luta política em «espectáculos de grande qualidade». Quem o diz é Pedro Lago, do Executivo da Festa, responsável pelo espaço das artes de palco. Manuel Mendonça, da Comissão do Avanteatro, lembra que o Partido e a Festa «sempre tiveram presentes estas realidades, com ou sem anos europeus». Mas sendo este o ano que é «resolvemos não ficar indiferentes a isto», levando à cena duas peças em que algumas expressões destas realidades são abordadas de forma pungente: Tuning, pela Companhia de Teatro de Almada (ver texto nestas páginas), e Saguão, pelo Teatro dos Aloés.
No primeiro texto aborda-se a marginalidade juvenil num subúrbio, e no segundo denuncia-se algumas das situações mais degradantes da nossa sociedade, através de três personagens que habitam um saguão cheio de imundícies. Levantando um pouco o pano, Manuel Mendonça afirma que Saguão «mostra a desilusão daquelas pessoas, apontando sempre o dedo a quem as empurrou para aquele local». A peça original italiana, da autoria de Spiro Scimone, venceu o prémio Ubu para a melhor peça de teatro italiana em 2004. Na opinião de Manuel Mendonça, estes dois espectáculos focam duas realidades muito concretas, e reais, que não têm a «visibilidade devida para que as pessoas tenham consciência delas e as procurem alterar». O Avanteatro pretende contribuir precisamente para lhes dar essa visibilidade de que tanto carecem.
Void, de Clara Andermatt (considerado pelo jornal Expresso o melhor espectáculo de dança de 2009), também se pode inserir neste bloco dedicado à exclusão social, sobretudo dos imigrantes. Representando a diáspora cabo-verdiana em Portugal, Void mistura dança, música e teatro. Tanto Manuel Mendonça como Pedro Lago destacam a presença de uma peça de Clara Andermatt na Festa, após algumas tentativas frustradas – numa das vezes por boicote do Governo Regional da Madeira, que impediu a viagem das crianças deficientes motoras da região que participavam no espectáculo.
Teatro, música, dança, marionetas, poesia...
Mas todo o teatro é intervenção e o Avanteatro conta este ano com muitos outros espectáculos de qualidade. Do Fundão vem a ESTE – Estação Teatral com a peça Cozinheiros, inspirada n' A Cozinha, de Arnold Wesker, escrita no início da década de 50 do século passado. Texto fundamental do teatro mundial, muito utilizado nas escolas de teatro pela quantidade imensa de personagens (todos eles com importância para o desenrolar da trama), a peça põe numa mesma cozinha de um grande restaurante os vencedores e os derrotados da II Guerra Mundial – como se ali estivesse todo o mundo do tão dramático quanto empolgante pós-guerra. Igualmente no exterior, O Bando traz Nós Matámos o Cão Tinhoso.
Encenado por Armando Caldas, O Mentiroso é uma peça de Carlo Goldoni. Escrita no século XVII, é intemporal, como afirmou Manuel Mendonça, pois este tipo de personagem «continua a habitar os nossos tempos e os sítios por onde vamos passando».
O centenário da revolução republicana, que nos dias da Festa estará a pouco mais de um mês de ser assinalado, dá o mote para o espectáculo de marionetas res publica, a caricatura ao serviço da tristeza pública, baseado nas figuras de Rafael Bordalo Pinheiro. O grupo Macapi traz ao Avanteatro outra peça de marionetas, virada para a infância – chama-se Alfanuí – O Eco dos Montes e conta as aventuras de um menino sem idade. As crianças terão, noutro momento, a oportunidade de aprender a fazer as suas próprias marionetas a partir de materiais que estavam destinados a ir para o lixo.
Os mais novos estão ainda no centro das atenções da primeira presença na Festa da Companhia de Dança de Almada, com o espectáculo Asas e Carapaças, Hastes e Barbatanas. Como lembraram Pedro Lago e Manuel Mendonça, há muito que o público mais jovem é privilegiado nas manhãs do Avanteatro, mas será a primeira vez da dança.
De Barcelona chega o Cabaret Literário, do Projecto Margot, composto por seis actrizes, uma das quais portuguesas. Trata-se de um espectáculo de poesia, passado num café de Lisboa. De Sevilha vem Alma Flamenca, espectáculo evocativo de Federico Garcia Lorca, produzido de propósito para a Festa do Avante!. A escolha do flamenco para homenagear o grande poeta espanhol – assassinado pelos franquistas – tem razões históricas, explica Manuel Mendonça: Lorca era um assíduo visitante dos locais onde se cantava, tocava e dançava o flamenco e muito do flamenco cantado tem letras suas.
O Avanteatro já habituou o seu público a terminar as noites com música no bar e este ano não será excepção. A animação está garantida, a julgar pelos intérpretes, todos eles já conhecidos do público do Avanteatro. Manuel Mendonça fala em quebra de uma tradição – que fazia o fecho de sexta-feira com sons alternativos; dava o de sábado ao jazz; e fechava no domingo com festa grossa. «Este ano é só festa», garante, com O Menino é Lindo, Roncos do Diabo e Melech Mechaya.
Rodrigo Francisco, autor de Tuning
«Tento mostrar a dimensão artística das pessoas comuns»
Rodrigo Francisco ainda não tem 30 anos mas já é um nome conhecido no panorama teatral português – e não só. Autor de duas peças, levadas à cena pela Companhia de Teatro de Almada (da qual é director-adjunto), o jovem dramaturgo confessa-se honrado de ver uma criação sua, Tuning, a abrir a programação deste ano do Avanteatro: «Para mim é uma grande honra, porque conheço a Festa do Avante! e o seu significado para a história do País. Trata-se de uma demonstração anual de resistência e de capacidade de organização. Acho que é notável organizar-se um evento daquela dimensão de uma forma voluntária, sem quaisquer ambições de mercado, para concretizar uma vontade e um projecto.»
Nos seus textos dramáticos, e pela forma como fala deles, nota-se a mesma crítica à sociedade actual, patente de forma implícita – embora clara – nestas palavras sobre a Festa do Avante!. Para o autor, Tuning fala da contradição existente entre uma sociedade que pressiona as pessoas para a obtenção de «sucesso» e não lhes permite, depois, a obtenção desse mesmo «sucesso» de forma legítima.
O ponto de partida desta reflexão é a história de um jovem que sonha ser jogador de futebol, que acredita ser a forma mais eficaz de atingir o êxito – para o qual, sublinha Rodrigo Francisco, «todos somos induzidos quotidianamente». Como a tantos outros, a vida troca as voltas a Pedro (o personagem da peça), que acaba por se ver obrigado a ir trabalhar numa oficina de automóveis. É aí que toma contacto com os seus colegas de trabalho e com os «esquemas» a que recorrem para obter dinheiro com facilidade, que utilizam depois na transformação de carros, actividade conhecida como tuning. «Esta é uma peça que coloca questões sobre as quais espero que as pessoas reflictam.»
A sua estreia teatral como autor deu-se em 2007, com Quarto Minguante, onde se abordam as dificuldades de comunicação entre gerações, expressas na relação entre um filho e o seu pai doente, na cama de um hospital. Também neste texto, é da gente comum que se fala. «Eu escrevo muito sobre os subúrbios, sobre as pessoas normais, do povo, porque há uma dimensão humana e artística nessas pessoas que nem sempre vem ao de cima quando se fala delas.»
Quarto Minguante e Tuning integrarão um ciclo de quatro peças, onde ainda serão tratados os temas da imigração e das prisões. A ideia, garante o autor, é lançar «um olhar mais complexo e consciente sobre estas realidades».
Como se faz um autor
O percurso que levou Rodrigo Francisco ao teatro é no mínimo curioso. A primeira vez que entrou numa sala de espectáculos não foi para assistir a nenhuma peça, mas sim para a montar. Estava-se em 1997 (tinha Rodrigo Francisco 16 anos) e a Companhia de Teatro de Almada levava à cena a adaptação de Carlos Porto d' O Carteiro de Pablo Neruda, de António Skármeta. «Nunca mais me consegui desligar do teatro», confessa, acrescentando que acontece o mesmo a muita outra gente.
Nos dez anos que vão do início da colaboração com a Companhia à estreia da sua primeira peça foi um longo caminho, durante o qual Rodrigo Francisco aproveitou para aprender: «O Joaquim Benite (director da Companhia de Teatro de Almada) reparou que eu tinha uma tendência para a literatura e incentivou-me a começar a escrever para teatro. A partir daí desenvolvemos um trabalho de equipa: é um privilégio para mim ter um encenador da sua dimensão a criticar o meu trabalho e a ajudar-me a melhorar o que escrevo.»
Para o jovem autor, «escrever para teatro é muito difícil». Ao escrever, acrescenta, «há sempre a tendência para querer dizer muita coisa». Mas no teatro há outras vozes para além da do escritor do texto – há a voz do encenador e a dos actores. Os dois textos que escreveu resultam de uma «rescrita, por vezes quase completa» do texto inicial. «A minha forma de escrever não é fechar-me em casa e entregar um texto acabado à Companhia. É, sim, a de um texto que se vai construindo, quase até ao dia da estreia.»