Fortunas crescem e povo empobrece
O primeiro-ministro foi ao Parlamento anunciar a alegada existência de sinais indiciadores de uma melhoria da situação económica. A «boa nova» foi explorada pelo chefe do Governo e pela bancada do PS mas não convenceu o Secretário-geral do PCP, para quem esta não foi uma afirmação de «confiança sustentada» mas um mero «exercício de ilusionismo».
A vida da maioria dos portugueses está pior
Tudo se passou no debate quinzenal da última sexta-feira, com Jerónimo de Sousa a confrontar José Sócrates com a «contradição insanável» que considerou existir entre o seu discurso e a realidade.
«É que o primeiro-ministro diz que a situação económica está melhor mas a vida da maioria dos portugueses está pior e vai ficar ainda pior», advertiu o líder comunista, criticando José Sócrates por vir anunciar o «amanhã que cresce» e «uma mão cheia de medidas» precisamente na véspera de apresentar a factura aos trabalhadores por via do saque dos salários, do aumento dos preços dos bens e produtos essenciais, dos cortes aos apoios sociais que «vão acentuar o drama de quem já vive uma situação dramática: os desempregados, os idosos, as crianças, os doentes acamados, as pessoas com deficiência».
E recordou o facto de as medidas do Governo surgirem na mesma semana em que dois estudos vieram comprovar que as «grandes fortunas já recuperaram da crise» e que «aumentou o número de ricos neste tempo de crise».
«Pode explicar esta contradição, senhor primeiro-ministro», desafiou o líder comunista, insistindo em saber como é que «no momento em que se criou mais riqueza, mais fortuna, nas mãos daqueles que sempre a tiveram, este Governo vai cortar em quem menos tem, em quem menos pode, designadamente aos trabalhadores, aos desempregados, aos reformados».
«Certamente que vai dizer que estamos em crise, que não há dinheiro», acrescentou, para logo recusar tal explicação: «há dinheiro, sim, está é mal distribuído».
Distribuição injusta
O chefe do Governo, fugindo ao nó da questão, pegou nos ténues sinais que o levaram a concluir pela existência de uma melhoria dos indicadores económicos para repetir vezes sem conta que a «melhor notícia para toda a sociedade portuguesa é o crescimento económico».
E negando «qualquer contradição», afirmou demagogicamente que este crescimento «é a melhor notícia para quem está desempregado, para quem tem dificuldades», como se crescimento fosse sinónimo de desenvolvimento, não fosse um mero dado quantitativo que não reflecte necessariamente avanços qualitativos em termos de maior justiça social ou de maior equidade na distribuição da riqueza, a qual, aliás, como se comprova, está cada vez mais concentrada e injustamente repartida.
Já sobre o ataque aos salários e às prestações sociais, considerou tratar-se de um conjunto de medidas que se inserem no que chamou «contributo nacional, colectivo e equilibrado» que o Governo «pediu a todos».
Jerónimo de Sousa, replicando, sem questionar a óbvia importância do crescimento económico, fez no entanto notar que a questão de fundo é saber «em que sentido é que ele é direccionado» e «como é que esse crescimento se está a verificar».
E convidou José Sócrates a não esquecer que 2009 foi um «ano mau» e, por conseguinte, partiu-se de um «ponto baixíssimo» que evoluiu para os «tais sinais que o primeiro-ministro referiu com sentido positivo», mas que não correspondem verdadeiramente a um «crescimento sustentado».
Daí a preocupação do PCP e o apelo reiterado por Jerónimo de Sousa para que José Sócrates não repita o discurso de que «estamos no bom caminho, de que amanhã vai ser melhor, o anúncio das 30 medidas, das 50 medidas, das cem medidas que levaram à situação em que hoje nos encontramos».
Portagens nas SCUT
Mais uma decisão injusta
Com o debate já bem perto do fim, sem que ninguém antes tivesse tocado no assunto, coube a Jerónimo de Sousa introduzir o tema das portagens nas SCUT e seu impacto nas economias regionais. O Secretário-geral do PCP não deixou aliás de registar a este propósito o «silêncio de chumbo» que até aí se mantivera sobre esta matéria, em particular do PSD, com posições ambivalentes que se desdobram entre ter um pé na contestação e outro a negociar à mesa com o Governo.
«O que é que mudou em relação aos requisitos que estiveram na origem da criação e classificação das SCUT para se imporem agora portagens?», perguntou, recordando que «na generalidade das regiões atingidas continua a não haver vias alternativas que garantam com eficiência e segurança os fluxos rodoviários», como afirma um estudo da própria Estradas de Portugal.
Jerónimo de Sousa recordou ainda que a «generalidade dos concelhos servidos por estas vias «continuam a ter níveis de desenvolvimento abaixo da média nacional», não hesitando por isso em concluir que esta é «mais uma decisão injusta», dado os «impactos negativos no desenvolvimento destas regiões e os impactos na vida das pessoas que procuram trabalho cada vez mais longe da sua residência».
País aleijado
«O Governo diz mata e o PSD diz esfola», ironizou ainda a este respeito o dirigente comunista, contestando que venha a ser colocado «o problema do alargamento das portagens para o resto do País, multiplicando o mal e pondo em causa o desenvolvimento do interior do País».
Daí a acusação ao Governo por este «mais uma vez» ter mudado de opinião, sem medir as consequências para essas já «debilitadas regiões, algumas cada vez mais desertificadas».
E depois de questionar se é esta a «visão de solidariedade e de coesão nacional» do Governo PS, particularmente em «relação às zonas onde os custos da interioridade se acentuam», o Secretário-geral do PCP deixou um aviso, dirigindo-se à bancada governamental: «com esta política que os senhores vão tentar executar, com a benção do PSD, vamos ter um País mais aleijado, mais inclinado para o litoral».
Trapalhada
Na resposta, José Sócrates expôs de forma atabalhoada o que disse ter sido «sempre a posição do Governo», ou seja, «em zonas onde o PIB per capita seja inferior à média nacional e onde não exista alternativa, as auto-estradas devem servir de instrumento ao desenvolvimento regional e portanto não deve haver portagens».
«Foi o que sempre disse e mantenho», asseverou. Esclareceu mesmo que o caso das auto-estradas do Norte não pode ser confundido com a que vai para a Guarda, dizendo que «são coisas distintas», mas omitindo que afinal aquelas não preenchem os requisitos que o próprio Governo definiu para que tenham portagem.
Dito isto, numa alusão ao PSD, afirmou-se esperançado que o chumbo na véspera dos chips electrónicos nas matrículas «não sirva de desculpa nem de expediente para que os partidos que dizem que defendem portagens afinal de contas as impeçam».
Para acabar, metendo os pés pelas mãos numa explicação onde afirmou uma coisa e o seu contrário, voltou a dizer que a mais recente proposta do Governo «estabelece portagens em todas as SCUT, desde que os residentes e a actividades económicas dessas regiões sejam isentas para que essas auto-estradas fomentem o desenvolvimento regional».