Benfica do Ribatejo

Henrique Custódio

Benfica do Ribatejo é uma freguesia do Concelho de Almeirim, no Distrito de Santarém, terra de vinho e de produtos hortícolas a bordejar a margem esquerda do Tejo quando este, acabado de raspar por Santarém, se espraia mansamente pela lezíria a caminho de Lisboa e do mar.

Sendo uma freguesia rural, Benfica do Ribatejo estende-se do Tejo ao que por lá é chamado «a serra», ficando pelo meio a povoação principal, do mesmo nome, seguindo-se-lhe o lugar de Cortiçóis, logo ao lado e já quase do tamanho da vila original e, finalmente, um amplo conjunto de «foros» a caminho da serra («Foros de Benfica» de seu nome, no caso uma sucessão de parcelas de terreno agrícola com habitação própria de pequenos agricultores).

Este vasto aglomerado de Foros de Benfica está quadriculado por uma rede de estradas e uma dessas vias dos Foros liga duas estradas nacionais que, entretanto, correm paralelas nas duas margens da freguesia (uma do lado do Tejo, a outra junto à serra). Trata-se de uma estrada vicinal com um enorme movimento, sobretudo de camiões em trânsito para o aterro intermunicipal construído na serra, mas que foi milagrosa e adequadamente alcatroada há uns 20 anos, o que a tornou particularmente apetecível a todos os que querem cortar caminho entre as duas estradas nacionais, que apenas se encontram em Almeirim, largos quilómetros adiante.

É precisamente essa magnífica ligação vicinal entre estradas nacionais que, no troço em que atravessa os Foros de Benfica, passou de tapete de alcatrão a paisagem lunar, solavancada de 30 em 30 metros por depressões brutais. E quem assim destruiu esta via (e várias outras, dos Foros e da Freguesia) foi a própria Câmara Municipal de Almeirim.

Tudo porque o presidente PS da Câmara Municipal de Almeirim, também presidente da empresa intermunicipal Águas do Ribatejo, José Sousa Gomes de seu nome, decidiu promover através da Águas do Ribatejo a construção de uma rede de esgotos na Freguesia de Benfica do Ribatejo. A Junta de Freguesia local, de maioria CDU e presidida então por Amândio Freitas, deu parecer favorável à obra mas advertiu de imediato que, após os trabalhos de instalação da rede, as ruas e estradas deveriam ser compactadas durante pelo menos mês e meio pelo próprio trânsito  – como aliás mandam as regras – e só depois se deveria proceder ao alcatroamento.

Todavia, o presidente Sousa Gomes tinha uma pressa insanável: é que as eleições autárquicas não esperavam mês e meio, eram já a seguir e, ao que constava, o homem temia pelo cargo, porque elementos da sua própria vereação estavam a concorrer contra ele como «independentes».

Daí ter respondido a Amândio Freitas que «o povo não podia esperar tanto tempo» e mandou alcatroar a gigantesca buracaria.

Com isto ganhou as eleições, Benfica do Ribatejo ganhou uma rede de esgotos que não funciona, as ruas da freguesia ganharam uma rede de buracos e de solavancos que lembram o Paris-Dackar e o povo, que «não podia esperar tanto tempo», pode agora esperar sentado que alguém, ao menos, lhes tape os buracos maiores...

É o que se chama o PS de Sócrates em todo o esplendor.



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