A confissão de Köhler
O presidente da Alemanha, Horst Köhler, afirmou, dia 26, que o envolvimento militar germânico no Afeganistão se deve mais à defesa dos seus interesses económicos do que a razões de segurança, como tem alegado governo.
A intervenção militar no Afeganistão tem razões económicas
Numa entrevista concedida durante a sua visita ao contingente militar no Afeganistão, Köhler considerou que o debate sobre a guerra naquele país terá cada vez mais de ter em conta o facto de que a protecção do comércio externo constitui um motivo legítimo para uma acção militar.
Interrogado pela Deutschlandradio Kultur sobre as razões da permanência de soldados alemães no Afeganistão, Kohlër começou por evocar os conhecidos pretextos do combate ao terrorismo, mas acrescentou logo de seguida: «A minha opinião é de que, em geral, estamos a caminho de compreender, mesmo de forma ampla na sociedade, que um país com a dimensão do nosso, orientado para o comércio externo, e por isso também dependente do comércio externo, tem de estar ciente de que, em caso de dúvida, de emergência, uma intervenção militar é também necessária para defender os nossos interesses.»
«Por exemplo», prosseguiu o presidente alemão, «para defender rotas comerciais ou impedir focos de instabilidade regional, que seguramente teriam impacto negativo no comércio, nos postos de trabalho e nos rendimentos. Tudo isto deve ser discutido, e creio que não o estamos a fazer demasiado mal».
Porém, a inusitada franqueza do presidente, que assim reconheceu e defendeu a legitimidade da política imperialista alemã, causou grande incómodo nos meios políticos alemães, de onde ecoaram hipócritas reacções de repúdio. De tal modo que o gabinete presidencial veio a terreno tentar dar o dito por não dito, explicando que o chefe de Estado se referia apenas à missão europeia no Golfo de Aden contra a pirataria nas costas somalianas, isto apesar de a pergunta ter sido feita claramente sobre o Afeganistão.
Dissimulação e hipocrisia
O líder parlamentar do partido Os Verdes, Juergen Trittin, considerou as explicações «insuficientes», e exigiu que o chefe de Estado retire o que disse. «É incompatível com a Constituição fazer uma política militar de comércio externo, Kohlër excedeu-se, porque, de contrário, com as suas afirmações, não estaria a respeitar a Lei Fundamental», disse o político ambientalista, cujo partido está entre os que apoiou a intervenção militar da Alemanha.
Os sociais-democratas também criticaram as declarações do presidente da República, salientando sobretudo a sua inconveniência: «Kohlër prejudicou a aceitação das missões militares das forças armadas, nós não queremos guerras económicas», disse o chefe do grupo parlamentar Thomas Oppermann.
Por seu turno, o democrata-cristão Ruprecht Polenz, presidente da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, defendeu o presidente, mas admitiu, simultaneamente, que as suas afirmações «não foram nada felizes, para não ir mais longe».
Por último, apenas o co-presidente do grupo do partido Die Linke (A Esquerda), Klaus Ernst, sublinhou que as palavras do presidente apenas confirmam o que os opositores à intervenção há muito dizem, ou seja, que os soldados põem em risco a sua «vida e integridade em nome dos interesses exportadores das companhias gigantes». Esta sempre foi «uma guerra por influências e matérias-primas», apesar de não ser esse o mandato conferido pelo Bundestag.