A Nova Teocracia do Dinheiro

Jorge Messias

Roubar aos pobres para dar aos ricos. Obediência ou morte...

 Os tecnocratas do grande capital estão cheios de dinheiro e de problemas que não conseguem resolver. Inventaram, no tempo, uma vasta gramática de utopias e de mentiras e agora, perante uma situação extrema e quase desesperada, compreendem que o arsenal de palavras de que dispõem mesmo assim não chega. É preciso ir mais além. Fazer em contra-mão os percursos da história e recuperar estratégias já esquecidas e cujas raízes mergulham nos terrores metafísicos de outrora, nas guerras imperiais de expansão ou nos jogos de palavras que determinaram anteriormente a sujeição ou a impunidade dos homens. Palavras cujo conteúdo se esgotou e agora permanecem em repouso na linguagem dos homens, apenas como símbolos. Todas elas fizeram sentido no passado, no quadro de totalidades que foram depois ultrapassadas.

Os tecnocratas bem sabem que tudo isto é verdade. Têm presente, entretanto, que o engano das palavras também pouco dura. É preciso renovar a mentira dando-lhe outras formas e outros volumes. Banindo escrúpulos e transportando mecanicamente o passado para o presente. Mudando precipitadamente, de modo a não deixar espaço para pensar. É o que se está a passar em Portugal. Foi impossível silenciar a crise – económica, financeira, social e política: uma crise global. Criou-se então o mito do «antes» e do «depois» da crise. Antes, a única receita pública que conduziria à felicidade dos povos passava pela destruição do Estado patrão e pela liberalização total dos jogos da concorrência. Veio a crise (causada pelas leis ímprevisíveis da história) e tudo se inverteu. O que agora se torna necessidade urgente e obrigatória, para «salvar a Pátria», é retomar os ritmos do século XVIII, repor no trono um Estado encabeçado por um «Rei Sol», desculpabilizar os crimes económicos e promover uma corte revestida a oiro.

Dizia Albert Mathiez na sua Revolução Francesa: «Para dominar a crise que se anunciava teria sido necessário ter, à cabeça da monarquia, um rei. Houve apenas Luís XVI!». E nós temos Sócrates, um pretendente a Rei Sol. Parece de opereta mas a situação com que nos deparamos é extremamente séria, a exigir de todos nós – trabalhadores e esmagadora maioria do povo – coragem, desassombro, capacidade de sacrifício e poder de luta.

O que torna os povos invencíveis perante a tirania é a sua capacidade de justa medida e o seu poder de analisar os verdadeiros riscos. Sabemos, por exemplo, que o inimigo é poderoso mas não tanto como pretende fazer crer. Os liberais e os seus aliados apoderaram-se do poder mas veja-se a que estado de ruína conduziram Portugal. Sem crédito, já, junto das populações, procuram agora impor-se pela autoridade, «puxar pelos galões», explicar que apenas estão a obedecer às ordens da Internacional do Dinheiro e que nada resta fazer senão rendermo-nos. E que este comportamento de bons alunos nos valerá as bênçãos do Papa e dos mais altos patrões. Mas – acrescentam – para chegarmos a este estado de beatitude o povo precisa de aceitar sacrifícios, comprimente. O desemprego, sem ressentimentos. Os aumentos dos preços, com compreensão. Os cortes orçamentais na saúde, no ensino, na segurança social, percebendo que tudo isto concorre para maior glória da Pátria. É neste sentido que Sócrates e os seus ministros falam do povo, a «bem» mas sem mostrarem os dentes. Se o povo não quiser, que não queira, muito bem... Mas o poder legitimado nas urnas, com largas maiorias parlamentares asseguradas, tão bem visto que quase sempre ganha nos tribunais – o poder dito democrático – está solidamente nas suas mãos. Em caso de desobediência popular – declaram os ministros – é sempre possível o recurso às forças da ordem, tudo em defesa dos direitos democráticos do povo!...

Mas o povo português, tal como os outros povos, não teme as ameaças quando está seguro e certo dos riscos que deve enfrentar. Lutou antes e depois do 25 de Abril, ganhou e foi vencido. Sabe que a verdadeira democracia não se decalca nas sebentas mas é sacrificadamente construída – gota a gota, pulso a pulso – nas ruas, nos campos, nos mares, nas fábricas, nas oficinas nas escolas e nas universidades. A Democracia é o poder do Povo e este a maior força do Universo.



Mais artigos de: Argumentos

A tourada e o futebol, de novo!

Apesar da gigantesca manifestação de mais de 300 mil pessoas a protestar no passado sábado, em Lisboa, contra a feroz ofensiva do PEC atacando os direitos dos trabalhadores e da população em geral, o canal público de televisão não fez lá um...

Quedas

A notícia anunciava uma espécie de vitória: a Bolsa de Lisboa foi a que «menos perdeu na Europa» (é obra...) no mês de Maio, situando as suas quebras nos 4,5%. Acima disto estiveram todos os poderosos da União (Alemanha, França, Inglaterra e por aí...

Contraponto viciado

1. Era a tarde do dia 29 de Maio. Mais de trezentos mil manifestantes desciam a Avenida da Liberdade em Lisboa. A RTP, operadora pública de televisão, distraía-se entretanto já não sei com que futilidade (embora a RTPN, só acessível por cabo, viesse a transmitir a...