A água
Invocando a crise e a urgência de «poupar», a Direcção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) proibiu o fornecimento público de água refrigerada nas suas instalações.
Se considerarmos que grande parte dos tribunais portugueses nem tem ar condicionado, que os seus muitos milhares de utentes passam, regularmente, largas horas nos intermináveis trâmites que ocorrem nas suas salas e que estas, nas torreiras do Verão, desidratam até um camelo, somos forçados a concluir que esta medida da DGAJ resulta de inopinado sadismo ou de enigmática imbecilidade.
Fernando Jorge, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), não está com meias tintas e classifica a decisão de «ridícula, desajustada e afrontosa», tanto mais que a colocação destes equipamentos de água refrigerada nos edifícios estatais (embora haja muitos tribunais que ainda deles não dispõem) foi uma medida de saúde pública determinada por sucessivos anos de seca. Ao retirá-los, a DJAJ condena os utentes dos tribunais a procurar água nas casas de banho, humilhação que nem sempre resulta, como por exemplo acontece no novíssimo Campus da Justiça de Lisboa, no Parque das Nações, que tem muita pompa mas não dispõe de casas de banho para os utentes, nomeadamente no Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC).
Acresce que a poupança máxima destes «cortes de água» nos tribunais atingirá quatro ou cinco mil euros por mês, no máximo, «menos que o ordenado de dois assessores», como recorda Fernando Jorge.
Neste entrementes, a ministra da Saúde, Ana Jorge, anunciou igualmente que a sua pretendida poupança de 50 milhões de euros no orçamento deste ano inclui a suspensão do fornecimento hospitalar de água engarrafada que, na especiosa linguagem da governanta, será substituída... «por água em jarros» - ou seja da torneira.
Há por aqui uma manifesta obsessão com a água. Será que o Governo de José Sócrates está a levar tão a peito o «corte nas despesas», que decidiu ir ao fundo da questão e cortar logo no líquido vital, a fonte primeva de toda a vida?
Mas há cortes menos radicais e muito mais eficazes na poupança.
Por que não cortar na legião de assessores que enxameia o seu volumoso Governo, onde 40 governantes – por sinal o número da história de Ali Bábá – contratam à vara larga centenas dos mais desvairados misteres? Só dois deles pagavam a água toda que agora querem cortar nos tribunais...
Continuando no território estatal, por que não poupa o Governo nos milhões com viagens, deslocações, combustíveis e viaturas oficiais, por que não corta nos pareceres, nas consultas e quejandos contratados a peso de ouro – muito ouro – numa rede interminável de escritórios privados de advogados, de engenheiros, de arquitectos e de sabe-se lá mais o quê, utilizando finalmente, para a realização dessas tarefas, os recursos humanos próprios de que o Estado dispõe na sua Administração?
Mas não. O Governo prefere cortar a água aos utentes dos tribunais e aos doentes dos hospitais. Até o País inteiro ficar a pão e água – da torneira, evidentemente.