Também há ordem no caos...

Jorge Messias

Exige a nossa atenção tudo o que se vai passando em Portugal e no mundo. A falência previsível do euro, o esmagamento dos direitos dos trabalhadores o  repulsivo aproveitamento do direito constitucional à fé e à convicção para mais facilmente se abrirem novos caminhos à exploração do homem e ao retorno da noção de que a religião actua, natural e inevitavelmente, como «ópio do povo». Este quadro de intervenção política revela-se agora, impunemente, na visita de Estado de um papa ultra-conservador (no mínimo) ao nosso país, nos negócios confessos da Igreja, nos comportamentos contraditórios de uma classe política dirigente que se afirma republicana e laica e nos silêncios da hierarquia religiosa aparentemente em comunhão com as angústias do povo português mas que, activamente, colabora e promove o afundamento nacional no pântano económico e social.

Crescem o desemprego e as falências em cadeia. Generaliza-se a prática da corrupção. Aumentam, em flecha, os índices de intervenção estrangeira na economia e na política interna portuguesa. Cresce a dívida pública. Os órgãos de comunicação baqueiam, um após outro, e entregam-se ao poder do capital. A democracia começa a ser um esboço ridículo da sua imagem inicial de liberdade da crítica.

A Igreja continua a ser igual a si própria, superficialmente  com uma imagem de modernidade polida a custo mas conservando as marcas da Idade Média. Mete-se na concha e tece intrigas. Aceita as homenagens dos ricos e poderosos e aproveita essas alianças para promover os seus próprios negócios e alargar as suas influências. Politicamente, o seu imobilismo ancora em dois velhos princípios com carácter dogmático: «riqueza e pobreza são mistérios transcendentes»; e «o poder não deve cair na rua». Ou seja: ricos e pobres existem «porque Deus o quer»; e «jamais o homem deve tomar o seu destino pelas suas mãos». Padres, leigos e organizações confessionais respeitam piedosamente esta conduta. São espectadores onde deveriam ser actores da mudança. Assistem, impávidos, ao soçobrar do País e correm velozmente atrás dos benefícios que o caos para alguns sempre produz.

 

O Patronato e a Igreja do Apocalipse

           

O Papa  (este e os outros) é o representante de Cristo na terra, o Vigário de Deus e o máximo responsável pela Igreja católica. Sócrates, como todos sabemos, é um comparsa menor. Serve, apenas, para reabrir portas que a Revolução de Abril encerrara. Meteu-se na catástrofe do «euro» e não sabe agora como fazer para alijar a carga. Por outro lado, os banqueiros jogam com a crise profunda do próprio capitalismo, a sua alma mãe. Recebem dinheiro a rodos, daqueles que querem fugir à crise e de outros a quem a crise ameaça de perto. Cultivam o milagre da multiplicação dos pães: os lucros da banca escorrem para os off shores  e quando regressam ninguém os reconhece de tão gordos que estão. Se houver défices, eles serão pagos pelos cidadãos comuns. O «País real” é o país dos ricos. A sua religião reside no Vaticano. A sua nação é a Comunidade Europeia. O seu banco, o FMI. Isto, não só em Portugal: também na Europa e em grande parte do mundo. Um exemplo é o da Grécia.

Os «grandes», magnânimos emprestaram dinheiro ao país para que este pudesse recuperar da crise do excesso de consumo. Mas a generosa dívida daí resultante será paga com língua-de-palmo - e será o povo anónimo a pagá-la. O peso da  gigantesca grilheta dos encargos servirá também aos banqueiros e políticos para justificarem o carácter de urgência das medidas de «salvação» que reduzam e eliminem o «parasitismo dos trabalhadores», responsável principal, segundo eles, pela eclosão da crise. Nem mesmo num mundo que caminha para o grande deserto, os ricos desarmam. Nunca, aliás, se renderão voluntariamente. A Igreja institucional é um dos mais destacados membros do «clube dos ricos».

Como sempre, Sócrates e os seus, procuram trocar as voltas e baralhar as cartas. Vestem a pele de cordeiro e encostam-se à poderosa igreja romana. Numa época que se diz de penúria, alargam os cordões à bolsa e têm gastos sumptuosos, como os que assumem com a vinda da Ratzinger a Portugal. Convocam os pobres para o beija-mão dos ricos. Tentam convencê-los de que tudo o que acontece é inevitável e de que devem baixar os braços. É este o sentido das alianças entre Sócrates e o alto clero. Ou entre Sócrates e a «sociedade civil».

O caos vai-se instalando. Mas as suas leis internas, as suas normas, são bem conhecidas pela Igreja. Por isso, os destinos do capitalismo são indissociáveis dos rumos do Vaticano.



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