Construir o futuro

Margarida Botelho

Em altura de grande ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e a soberania do país, ainda por cima coincidindo com os 120 anos do 1.º de Maio, foi necessário reforçar as vozes de serviço para desvalorizar e desincentivar a luta. Dos mais obscuros comentadores aos experientes pesos pesados destas operações, com destaque para Mário Soares e para as inevitáveis caras da UGT, todos foram poucos para tamanho empreendimento.

O diapasão do grande capital mandou afinar o coro pelo mote da «responsabilidade» e do «interesse nacional».

Em entrevista à TSF na véspera do 1.º de Maio, Helena André, ministra do Trabalho, afirmou, numa chantagem trauliteira: «sabemos claramente que um elevado nível de contestação pode levar aqueles que nos observam do exterior a ter alguns juízos relativamente ao que é o clima social e económico do nosso país».

Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, reforçou: «todos os que entendem que têm contas a acertar, reivindicações – legítimas que sejam – a expor, que permitam que nos próximos tempos, o país se concentre em valer àqueles que não têm outras possibilidades e às pessoas que estão mais desprotegidas», deixando apelos à «paz social».

João Proença, secretário-geral da UGT, aproveitou a ocasião para estender o tapete e proclamar que «os trabalhadores estão dispostos a fazer sacrifícios».

A esta operação responderam os trabalhadores com determinação e luta. A CGTP-IN aponta para a realização de 93 iniciativas de comemoração do 1.º de Maio, em 18 capitais de distrito e nas regiões autónomas, em 39 concelhos e 44 localidades, que envolveram centenas de milhares de trabalhadores.

Ao contrário dos apelos servis do Governo do PS, do PSD e da UGT, o que melhor serve o país não é apertar o cinto, aguentar calado, pensar que podia ser ainda pior, esperar que só toque aos outros, paralisar de medo ou conformar-se com o destino deste pobre povo.

O que serve o país é a luta. O que defende os interesses dos trabalhadores – de cada um e de todos –, da juventude, das mulheres, dos reformados, é a luta. Quem luta hoje defende os seus direitos, o seu posto de trabalho, o seu salário. Mas mais: quem luta hoje constrói futuro. Para si e para o país.



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