Preconceitos, dizem

Correia da Fonseca

Ao longo do passado dia 25, estive sobretudo atento à RTP1, canal principal da operadora estatal de televisão, no convencimento que ali encontraria abundantes notícias dos festejos do Dia da Liberdade. Isto, entenda-se, cuidando por não perder de vista o que se ia passando nos outros canais terrestres. Não direi que fiquei completamente frustrado: a «1» condescendeu, pelo menos, em fazer a cobertura da sessão comemorativa havida de manhã na Assembleia da República e, à noitinha, transmitir a gravação do espectáculo que se realizara no dia 15, no Coliseu dos Recreios, por iniciativa da Associação 25 de Abril. Para além disto, porém, não é excessivo dizer que quase não fez mais nada. E é decerto um dever acrescentar que, mesmo fazendo zapping pelos diversos canais nos horários aparentemente mais adequados, não consegui ver imagens do grande desfile que desceu a Avenida da Liberdade, em Lisboa, que fossem minimamente informativas da dimensão do acontecimento. Vi e ouvi, isso sim, a mini-entrevista que um repórter se deu ao trabalho de fazer a um provocadorzito de minúscula envergadura que por ali se arrastava: para esse houve tempo de antena e material disponíveis. Mas não é nada que possa espantar-nos: bem se sabe que RTP e similares sofrem de uma espécie de doença crónica que lhes provoca um enorme fastio e sinais vários de alergia quando deparam com eventos por onde perpassam vestígios de comunismo ou mesmo, mais simplesmente, de apenas explícito antifascismo. Parece que é uma questão de educação: as três operadoras que são o tríplice pilar da sabedoria de milhões de portugueses não foram educadas para o convívio cívico com a Esquerda que não vende nem esconde o seu património, que chama as coisas pelos seus nomes, que se recusa a dançar com a Direita uma qualquer dança de salão. E por isso lhe sofre as consequências também no plano mediático.

Até a esperança

Manda a verdade registar que no mesmo dia 25 a RTP2 transmitiu diversos documentários e entrevistas directamente relacionados com a Revolução de Abril. Pelos vistos, alguém terá entendido que ali é que ficavam muito bem, resguardados de olhares, pois é sabido que a «2» é escassamente frequentada. É aliás praticamente certo que no critério de quem manda nestas coisas o próprio 25 de Abril não tem interesse jornalístico. Ora, foi ao acompanhar esses programas como que varridos «para debaixo do tapete» que voltei a ouvir um argumento que parece estar a tornar-se recorrente nestes dias em que se contesta o PEC apresentado em Bruxelas, em que em cima ou talvez debaixo da mesa está a proposta pêèssedaica de revisão constitucional, em que a telenovela fatigante dos inquéritos parlamentares tende a fazer esquecer no plano mediático os dramas reais e terríveis de muitos milhares de desempregados sem trabalho nem subsídio. Ouvi, pois, mais uma vez, que o que faz com que a Esquerda tantas vezes diga «não!» às propostas excelentes em que a Direita se desentranha são os “preconceitos ideológicos”. E, tendo ouvido tão sintética lição, procurei aplicá-la a situações concretas, verídicas, quotidianas, confiado aliás que não serei o único a fazê-lo. Aprendi assim que se um casal de desempregados se queixa por ter encerrado a empresa onde trabalhava sem que lhe tenham sido pagos os salários em atraso, e que por isso responsabiliza a gestão da empresa, o faz apenas por preconceitos ideológicos. Que só por preconceito ideológico quero encontrar atempadamente um médico para os meus filhos. Que é num insustentável preconceito ideológico que radica a obsessão de alguns trabalhadores de vida inteira que não querem morrer em situação de miséria. Que até a já presidencial indignação perante os devoradores de milhões é já uma aparente e decerto inconsciente contaminação por preconceitos ideológicos. Que o projecto de uma sociedade justa onde a exploração do esforço alheio não seja o grande caminho para o sucesso não passa de um obsoleto preconceito ideológico. Que, bem feitas todas as contas, a própria esperança é um preconceito ideológico. E que por tudo isto se descobre que é à própria dignidade que eles, os que ao mirarem-se ao espelho talvez se vejam pragmáticos quando são apenas gente sem escrúpulos, chamam preconceito ideológico.



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