PEC – absurdo e paradigma de hipocrisia

Carlos Gonçalves
Este desbragado conjunto de medidas de agravamento da política de direita, que esta semana foi motivo da votação de uma «carta de intenções» na AR e que, num absurdo de lógica da hipocrisia, foi baptizado de PEC, é na verdade um programa de instabilidade, regressão e declínio – instabilidade social, excepto para os grandes senhores do dinheiro e respectivas cortes; regressão económica e social, num vórtice de exploração e de concentração do poder económico; e declínio nacional, com perda dos instrumentos para o elementar exercício da soberania – virá o dia em que uma qualquer personagem fascistóide desta UE proporá a compra de três ilhas dos Açores e da Torre de Belém.
Este PEC é um paradigma da hipocrisia, não apenas pela falsidade do que o nome proclama, mas também pela atitude de muitos dos seus instigadores e decisores.
É verdade que do PS já (quase) nada se estranha, mas isto de Soares, Alegre e outros, se dizerem contra certas privatizações, cortes de direitos, adiamento sine die da taxação da roleta bolsista, etc., mas depois nada fazerem de facto, não romperem com estas orientações e nem um sequer convocar o voto contra, é um superlativo de hipocrisia. Concluem «o PEC foi o que podia ser», ou «há mais vida para além do PEC», isto é - não nos incomodem que estamos no banquete, resignem-se e que o PEC faça o seu caminho, para glória do capital (com valores sociais – claro!).
E do PSD não surpreende que, tendo dia 25 apoiado o PEC com uma abstenção favorável, a 26, numa hipocrisia sem escrúpulos, se afirme o contrário da votação da véspera. É uma impostura, sem o acordo tácito dos candidatos a resolução do PEC não teria passado. E o CDS votou contra por perfídia, porque o seu voto era descartável.
A má consciência sobre a perversidade do PEC leva a que os seus criadores – os mandaretes da política de direita – façam constar que rejeitam a horrenda criatura. Mas o PEC não é órfão. Os banqueiros, que não dormem em serviço, logo dia 26 encarregaram-se de esclarecer que este é o seu PEC e que as forças políticas ao seu serviço, PS/PSD/CDS, se vão bater pela sua concretização, até às últimas consequências.
O PEC é tão perverso que o descrédito é já incontornável. E a luta ainda agora começou. É possível travar e derrotar o PEC.


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