Clareza

Vasco Cardoso
No domingo passado, o PCP chamava a atenção para a contradição entre as declarações do Presidente da República de um apoio incondicional ao PEC e as obrigações deste em cumprir e fazer cumprir a Constituição.
O PEC é um programa de agravamento das injustiças, de imposição de mais sacrifícios ao nosso povo, de destruição do aparelho produtivo e de alienação pelo Estado de empresas estratégicas. O PEC é mais uma cedência da nossa soberania perante a União Europeia, é uma opção pelos interesses do grande capital.
O apoio de Cavaco Silva a estas medidas não surpreende. É o mesmo apoio que tem dado – por acção ou omissão - à política de direita do Governo. Política que ele próprio concretizou enquanto primeiro-ministro pelo PSD (1985-1995). É por isso que, por mais redondos que sejam os discursos e as interpretações sobre o exercício das funções presidenciais, Cavaco Silva é também responsável pela situação a que o País chegou.
E se clara está a posição do actual Presidente sobre o PEC, não deixa também de ser necessário assinalar o posicionamento de outros que estão na «corrida a Belém», designadamente o de Manuel Alegre (previsivelmente o candidato do partido do governo e do BE). O registo crítico com que numa fase inicial abordou o PEC, consciente do descontentamento que estas medidas provocam, acabou por ser secundado pelo seu compromisso de sempre com o PS quando procurou enterrar o assunto com uma esclarecedora frase: «há mais vida para além do PEC». Claro que há. Mas é uma vida bem mais difícil e injusta.
Nestes tempos em que se agudizam contradições e conflitos entre interesses que sempre foram antagónicos exige-se clareza, seja de Alegre, de Nobre ou de outros putativos candidatos. Mas há sempre quem procure passar pelos intervalos da chuva e ficar em cima do muro a olhar para cada um dos lados da luta de classes. Refugiando-se em eufemismos e estados de alma, para exibir neutralidade. E no entanto, a vida reclama posicionamentos claros e de combate contra a política de direita, opções de ruptura e de mudança, que não são compatíveis com o taticismo de quem quer o voto dos explorados e o apoio dos exploradores.


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