Sorte grande e aproximação

Jorge Cordeiro
Falhada que está a resposta aos problemas dentro de portas, a nomeação de Vítor Constâncio para o Banco Central Europeu parece ter encontrado fora de portas aquele toque de renascimento nacional. Ouvindo e lendo o que a propósito se disse, teria saído a «sorte grande» a Portugal. Diga-se, no caso em presença, que – excepção feita provavelmente ao próprio – ao país nem a «aproximação». Não se contestará a escolha face aos critérios e requisitos indispensáveis: alinhamento acrítico face aos dogmas monetaristas e fiel protagonista da dinâmica de integração capitalista da União Europeia. Faça-se justiça que na matéria requerida a opção bate certo. E para os que, olhando para o papel do ainda governador do Banco de Portugal, inocentemente se interrogam sobre pormenores como: a sucessão de previsões falhadas; a manifesta dificuldade de conviver com as estações do ano dada a contradição entre as sempre risonhas estimativas dos chamados boletins da primavera e o ar carregado e sombrio da realidade económica; o desatino na «regulação financeira» que seria suposto garantir; ou a não percepção de buracos de um tamanho que um cego veria, de que são exemplo os casos BPP e BPN agora pagos a preço de ouro pelo erário público – sempre se dirá que não é defeito mas sim feitio. Verdadeiras minudências face ao que realmente importa no curriculum das criaturas que, venham donde vierem, para ali irão gerir os interesses em presença.
E neste «vai e vem» nacional, em que por cada um dos que para lá vai - seja Barroso ou Constâncio – nos levam, à conta, parcelas de soberania, mar que nos pertence, o pouco que resta da produção agrícola, sobra apenas o inusitado e bacoco contentamento dos do costume. Destas trocas sobrará para uns poucos o que faltará a todos os outros. E não sendo difícil de prever que Constâncio continuará a fazer o que de facto sabe fazer – perorar, sentado na pilha do seu chorudo salário, agora ainda mais nutrido, sobre os sacrifícios que a «crise» não dispensa e as contenções salariais que engordam o capital – menos difícil é antever que o país real, aquele que vive e trabalha sob o peso das injustiças e desigualdades, continuará a pagar o preço da política de direita.


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